
Crianças
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Neste Dia das Crianças, em meio às celebrações e ao encanto da infância, vale lembrar que crescer também pode ser turbulento. Imagine a cena: exausto(a) após um dia longo, você se depara com uma birra intensa ou um choro inconsolável do seu filho. Por trás desse comportamento está, muitas vezes, uma mistura de sentimentos que a criança ainda não consegue nomear. A primeira infância é um caldeirão de experiências vividas com uma intensidade que nós, adultos, só aprendemos a regular com o tempo.
Nos últimos cinco anos, a pergunta “Como ajudar as crianças a lidar com as emoções?” se destaca entre as consultas do tipo “Como…” no Google, nas pesquisas relacionadas a sentimentos e emoções feitas no Brasil, segundo levantamento da Sala Digital.
O destaque dessa busca revela mais do que uma simples curiosidade: expõe a inquietação silenciosa de pais e cuidadores diante dos desafios emocionais da infância e o desejo crescente de aprender a acolher, nomear e orientar sentimentos que, muitas vezes, nem os próprios adultos sabem bem como lidar.
A ciência confirma que tudo o que acontece na primeira infância é determinante para a formação intelectual e emocional. A regulação emocional (capacidade de reconhecer, entender e manejar sentimentos) impacta diretamente as relações sociais, a aprendizagem e a saúde mental ao longo da vida.
Apego e cuidado responsivo: o pilar da segurança emocional
Quando a criança enfrenta uma crise emocional, o primeiro passo não é aplicar punições, mas restabelecer o vínculo de segurança.
Segundo o modelo de Atenção e Cuidado Integral (Nurturing Care), promovido pela UNICEF e OMS, o desenvolvimento infantil se apoia em cinco domínios. O Cuidado Responsivo, por sua vez, é um deles. Significa perceber, entender e responder aos sinais da criança de forma oportuna e adequada, construindo um vínculo de confiança e previsibilidade.
Pense nesse vínculo como a âncora de um navio em meio à tempestade: quanto mais firme, mais segura a criança se sente para explorar o mundo sem gastar energia temendo se machucar.
Brincar é parte essencial desse processo. Além de estimular raciocínio lógico e criatividade, o lúdico é ferramenta de expressão emocional — ajuda a elaborar frustrações e desenvolver repertório afetivo.
O espelho emocional: o que o adulto ensina sem perceber
A raiva é uma emoção básica, natural e necessária. A forma como os adultos reagem a ela, porém, também ensina.
As crianças funcionam como espelhos: repetem reações, palavras e posturas dos cuidadores. Responder à frustração com gritos, insultos ou violência física ensina que conflitos se resolvem assim.
Modelar comportamentos saudáveis exige dar o exemplo: respirar fundo, fazer pausas e mostrar formas concretas de autocontrole. A criança aprende mais ao observar do que ao ouvir.
A chave prática: escuta ativa e validação
Validar é reconhecer o sentimento da criança e isso tem efeito direto sobre sua capacidade de nomear e regular emoções.
“Validar não é permissividade. É um ato educativo que separa o sentimento, que é sempre legítimo, do comportamento, que pode ser inaceitável”, explica a psicóloga Heloisa Baggio, da Pastoral da Criança.
Guia prático de escuta ativa e validação:
- Acolha primeiro: abaixe-se, mantenha contato visual e ofereça presença. “Estou aqui com você. Quer um abraço?”
- Dê nome à emoção: ajudar a criança a verbalizar é como acender a luz em um quarto escuro. “Parece que você está com raiva/triste/assustada. Não é errado sentir isso.”
- Separe emoção de ação: “Sentir raiva é normal. Quebrar coisas, não.”
- Ensine estratégias de calma: respiração profunda, “cantinho da calma” (sem punição), metáforas como a onda (emoções passam) e reflexões pós-crise (bumerangue).
Quando procurar ajuda profissional
A urgência expressa nas buscas digitais é um lembrete: fortaleza emocional se aprende. Investir nesse desenvolvimento é um ato de amor e responsabilidade.
Se a dificuldade se torna persistente, com crises intensas, dificuldade extrema com frustrações ou comportamentos agressivos descontrolados, pode ser necessário suporte profissional. O sofrimento mental na infância é crescente e exige atenção também à saúde emocional dos cuidadores, que influencia diretamente no bem-estar das crianças.
Organizações como SBP, UNICEF, Pastoral da Criança, MEC/Harvard (com programas de habilidades socioemocionais) e profissionais de psicologia e pediatria oferecem suporte e recursos confiáveis.
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