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Conheça o camicase da 2ª Guerra que escapou oito vezes da morte

Conheça o camicase da 2ª Guerra que escapou oito vezes da morte

DO JORNAL DA BAND

23/12/2020 • 20:07 • Atualizado em 23/12/2020 • 23:49

Odachi, um camicase que escapou oito vezes da morte

Odachi, um camicase que escapou oito vezes da morte

Jornal da Band

Você acredita em destino? Então espere para conhecer a história do senhor Odachi, um camicase que escapou oito vezes da morte durante a Segunda Guerra. Um segredo guardado por quase 70 anos que esse piloto japonês compartilha agora em uma entrevista exclusiva ao Jornal da Band.

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“Para nós, camicases, viver era morrer. Quando eu acordava de manhã, pensava: hoje será meu último dia”, lembra o ex-piloto Zakuo Odachi, atualmente com 94 anos.

Ele é um sobrevivente de tempos sombrios. Adolescente quando o Japão atacou Pearl Harbor e declarou guerra aos EUA, decidiu se alistar e tentar uma concorrida vaga na yokaren -- a escola de elite para pilotos da marinha imperial – aos 16 anos, em uma espécie de vestibular. Odachi foi o único de seu vilarejo a ser aprovado.

“Quando eu era criança, estava determinado a me juntar à guerra para salvar o país. Meus amigos falavam: vou entrar para o Exército. Eu escolhi a Marinha. As notícias no rádio só falavam de guerra. Eu sonhava em me tornar um piloto”, conta.

O jovem Odachi na época da Segunda Guerra - Jornal da Band

Em 1944, a guerra chegava ao estágio final. Com a derrota iminente, o Japão passou a usar táticas mais drásticas, como missões suicidas.

“Os camicases não tinham apenas uma função militar, mas uma função psicológica na guerra. Então você lutar contra alguém que está disposto a colocar sua própria vida em jogo em confrontos, isso retardou muito o conflito”, explica o historiador Victor Missiato.

Cerca de 4 mil camicases morreram em ações suicidas durante a segunda guerra. Quando o Japão se rendeu, sobreviventes - como o senhor Odachi - optaram pelo silêncio. Pelo mundo afora, esses pilotos dispostos a dar a vida para naufragar navios inimigos passaram a ser vistos como fanáticos e terroristas, e o estigma persistiu durante muitos anos. Contudo, em 2016, o senhor Odashi resolveu contar ao mundo a verdadeira história dos camicases.

“Pensavam que éramos perigosos ou loucos. Nunca fomos essas pessoas. Nenhum de nós queria morrer.

Sucesso de crítica no Japão, o livro "Memorias De Um Camicase" foi lançado em inglês em 2020, no aniversário de 75 anos do fim da Segunda Guerra. No livro, Odachi conta como era viver sabendo que aquele dia poderia ser o seu último.

Como um gato, que tem sete vidas, o senhor Odachi sobreviveu a sete missões suicidas. Mau tempo, problemas técnicos, alvos não encontrados: o acaso sempre lhe garantia um dia a mais de vida. E naquele 15 de agosto de 1945, não poderia ter sido diferente.

Odachi atualmente - Jornal da Band

“Nossa missão foi subitamente abortada com o anúncio da rendição pelo Imperador, nós ficamos em choque. Todos perdemos a fala. Ninguém abriu a boca, só olhávamos uns para os outros. Então, pouco a pouco, começamos a entender que havia acabado.

“A pista de gramado era paralela à costa e tinha apenas um quilômetro. A superfície estava esburacada pelos bombardeios. O zumbido estridente dos motores chegou aos nossos ouvidos e jogou poeira no ar. Liberei o acelerador e meu avião balançou em movimento. Naquele exato momento, percebi um veículo vindo em nossa direção. Um soldado no carro parecia estar gritando, não que pudesse ser ouvido com o barulho dos motores. Ele fez uma grande cruz com os braços. Perplexo com a intrusão repentina, parei meu avião logo atrás do líder. Abortar o ataque! O veículo parou na frente da aeronave principal para bloquear seu caminho. Um mecânico saltou para a minha asa e disse que a missão tinha sido cancelada”, descreve o ex-piloto, recriando o momento em seu livro.

Bombas e fim da guerra

A rendição do Japão veio dias depois dos ataques dos Estados Unidos contra Hiroshima e Nagasaki, nos dias 6 e 9 de agosto de 1945.

“O fato dos americanos utilizarem os ataques nucleares, entre outros motivos, está relacionado ao fato do Japão não se render, por essa questão da honra”, justifica Missiato.

Apesar dos severos danos estruturais e na saúde dos japoneses após os ataques, Odachi não guarda no corpo nenhuma sequela da guerra. Mas ainda é assombrado pelas lembranças daqueles dias.

“Chegava a acordar até dez vezes na mesma noite. Até hoje, quando vejo algo sobre a guerra na tevê ou no jornal, eu sonho com isso”, relata o veterano.

Quando a guerra acabou, Odachi entrou para a polícia e continuou lutando kendô (a arte milenar japonesa com espadas). E foi durante as aulas no quartel que ele conheceu Shigetu Ohta, um promotor aposentado que o convenceu a colocar no papel as memórias de camicase e nos ajudou a entrevistá-lo para essa reportagem.

Odachi diz que acredita em Deus. “Todos os anos, no ano novo, acordamos às três da manhã e visitamos o templo para rezar por saúde, felicidade e prosperidade. Nunca perdi uma visita”, disse, falando com um altar budista de fundo.