
REUTERS/Rodrigo Garrido
Os chilenos voltam às urnas neste domingo, 16, na primeira eleição presidencial com voto obrigatório desde 2012. Cerca de 15 milhões de pessoas estão aptas a participar do pleito. Pesquisas apontam que um candidato da direita deve disputar o segundo turno contra a governista Jeannette Jara. O avanço conservador é impulsionado principalmente pelas crises migratória e de segurança.
A percepção de que a criminalidade aumentou — e estaria ligada à imigração — dominou o debate eleitoral. Na pesquisa Atlas Intel, divulgada em outubro, 53,1% dos entrevistados citaram a insegurança e o narcotráfico como os maiores problemas do país. Já o relatório da Fundação Paz Cidadã, de setembro, indica que 24,3% dos chilenos têm alto temor em relação à violência, índice que permanece acima de 20% desde 2022.
Embora o Chile siga entre os países mais seguros da América do Sul — atrás apenas de Argentina e Uruguai, segundo o Global Peace Index — alguns tipos de crimes cresceram nos últimos anos. Dados do Ministério Público mostram que, desde 2016, a taxa de homicídios para cada 100 mil habitantes está em alta: passou de 4,2 para 6 entre 2015 e 2024, um salto de 42,8%. A maioria dos homicídios é cometida por chilenos, e cerca de 20% por imigrantes, sobretudo venezuelanos e colombianos. Estima-se que 337 mil estrangeiros vivam em situação irregular no país.
Outros delitos também preocupam. Os sequestros aumentaram 27,8% entre 2022 e 2024 e seguem em tendência de crescimento. O roubo de celulares, segundo a Polícia de Investigações (PDI), chega a 2 mil aparelhos por dia — aproximadamente 500 mil ao ano.
Alejandra Bottinelli, doutora em Estudos Latino-Americanos pela Universidade do Chile, explica que parte da sociedade associa o aumento da violência à imigração, mas alerta para a generalização: “É verdade que há maior participação de estrangeiros em certos crimes, mas atribuir a criminalidade a toda a população imigrante é distorcer a realidade. A maioria é trabalhadora e honesta”, afirma.
Segundo analistas consultados pelo Estadão, o crescimento da direita também decorre da baixa aprovação do governo Boric e do distanciamento atual do setor em relação ao legado da ditadura de Augusto Pinochet — um processo que se consolidou nos governos de Sebastián Piñera.
Nesse cenário, três nomes despontam no campo conservador: José Antonio Kast (Partido Republicano), Johanes Kaiser (Partido Nacional Libertário) e Evelyn Matthei (União Democrática Independente). No Painel Cidadão, última pesquisa antes das eleições, Jara aparece com 26%, seguida por Kast com 21%, e Kaiser e Matthei empatados com 14%. O independente Franco Parisi tem 10%.
Para um possível segundo turno, marcado para 14 de dezembro, os levantamentos indicam derrota da candidata governista contra qualquer um dos três adversários da direita: Kast venceria por 46% a 32%, Matthei por 45% a 30% e Kaiser por 45% a 41%. “A direita vai se unir, não importa quem passe, e haverá transferência de votos”, avalia o cientista político Carlos Montecinos.
Kast, que perdeu força nas últimas semanas, tem apostado na polarização. “Esta é a eleição entre o caos e a ordem”, discursou no encerramento da campanha. O libertário Kaiser, defensor da pena de morte e admirador declarado do regime de Pinochet, é visto como o principal adversário de Kast dentro do próprio campo conservador. Ele tem atraído eleitores insatisfeitos com a política tradicional.
Do outro lado, Jara — ex-ministra do governo Boric e filiada ao Partido Comunista — luta para se desvincular da alta rejeição ao atual presidente, avaliado negativamente por 62% dos chilenos, segundo a Cadem. Para o historiador Rodrigo Mayorga, da Universidade Católica, os erros do governo e a guinada pragmática após o início do mandato contribuíram para o fortalecimento da oposição conservadora.
Outro fator de peso é a mudança nas prioridades da população. Um estudo da Fundação Nodo XXI aponta que, enquanto os protestos de 2019 exigiam mais igualdade e melhores condições de vida, agora a demanda central é por ordem pública, controle migratório e segurança — reflexo do fracasso dos dois processos constituintes e de uma crescente “fadiga social”.
Desde o plebiscito constitucional de 2022, o voto é novamente obrigatório no Chile. Quem não comparecer às urnas neste domingo poderá pagar multa de até 104.313 pesos (cerca de R$ 534).
*Com informações do Estadão Conteúdo.
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