O Rio de Janeiro vive sob a sombra de uma complexa teia de organizações criminosas que disputam territórios, poder e recursos. Longe de ser um problema monolítico, a segurança pública do estado é desafiada por dois modelos principais de criminalidade: as facções criminosas e as milícias.
Relatórios do Instituto de Segurança Pública (ISP-RJ) e de operações da Polícia Civil e Militar do Rio de Janeiro demonstram que, embora ambos os grupos utilizem a violência como ferramenta, suas origens, estruturas e fontes de receita são distintas, criando um cenário de conflito constante.
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Análises do Ministério da Justiça e Segurança Pública apontam que a dinâmica entre esses grupos é fluida, marcada por alianças temporárias, traições e guerras sangrentas pelo controle de comunidades e das economias ilícitas que elas abrigam.
A origem das facções: do cárcere para as comunidades
As facções nasceram dentro do sistema penitenciário fluminense durante a ditadura militar. O que começou como um pacto de proteção mútua entre detentos evoluiu para uma estrutura hierárquica que extrapolou os muros das prisões e passou a controlar a venda de drogas em centenas de favelas.
O modelo de negócio é primariamente o tráfico de drogas e armas. O domínio territorial é fundamental para garantir os pontos de venda (as "bocas de fumo") e as rotas de escoamento. A violência é explícita e usada tanto para intimidar moradores quanto para combater grupos rivais e as forças do Estado.
A ascensão das milícias: O "Estado paralelo"
As milícias representam uma evolução e uma sofisticação do crime organizado no Rio. Formadas majoritariamente por agentes e ex-agentes de segurança do Estado (policiais militares, civis, bombeiros e militares), elas surgiram com o discurso de "combater o tráfico" e trazer segurança para as comunidades.
No entanto, como investigações da Polícia Federal e do Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (GAECO/MPRJ) revelam, essa suposta proteção se converteu em um sistema de extorsão e exploração.
Em vez de focarem no tráfico, as milícias criam um monopólio sobre serviços essenciais nas áreas que dominam. A cobrança de "taxas de segurança" de comerciantes e moradores é apenas o começo.
Elas controlam a venda de gás de cozinha, o fornecimento de água, os serviços de TV a cabo e internet ("gatonet"), o transporte alternativo (vans e mototáxis) e até mesmo o mercado imobiliário ilegal.
O poder miliciano é mais sutil, mas não menos violento. Sua expansão territorial, especialmente na Zona Oeste do Rio e na Baixada Fluminense, é um dos maiores desafios para a segurança pública, dada a sua infiltração em estruturas políticas e institucionais.
Lista das principais organizações criminosas no Rio de Janeiro
Com base em dados abertos e relatórios de inteligência dos órgãos de segurança, estas são as principais organizações em atividade:
Facções criminosas
- Comando Vermelho (CV):Origem: A mais antiga e maior facção do estado, nascida no presídio da Ilha Grande nos anos 1970.Atividade Principal: Tráfico de drogas (cocaína e maconha) e armas em larga escala.Características: Estrutura pulverizada, com lideranças locais que respondem a um "conselho" de chefes, muitos deles presos. É a facção com maior presença territorial na Região Metropolitana.Lema: "Paz, Justiça e Liberdade".
- Terceiro Comando Puro (TCP):Origem: Surgiu de dissidências do antigo Terceiro Comando (TC), que por sua vez foi uma cisão do CV.Atividade Principal: Tráfico de drogas, com um perfil considerado mais "empresarial" e menos ideológico que o CV.Características: Conhecido por estabelecer alianças táticas com milícias em certas áreas para combater o avanço do Comando Vermelho. Controla territórios estratégicos, como partes do Complexo da Maré e da Zona Norte.
- Amigos dos Amigos (ADA):Origem: Criada a partir de outra dissidência do Comando Vermelho nos anos 1990.Atividade Principal: Tráfico de drogas.Características: Já foi a segunda maior facção do Rio, mas perdeu grande parte de seus territórios e relevância após conflitos internos, operações policiais e a morte ou prisão de seus principais líderes. Hoje, controla poucas comunidades, como a Rocinha, mas de forma instável.
Milícias:
Não possuem uma estrutura unificada como as facções de tráfico, operando mais como uma federação de grupos locais com diferentes níveis de poder e organização.
- "Liga da Justiça" (e suas ramificações):Origem: O grupo miliciano mais famoso, que dominou a Zona Oeste do Rio por anos. Embora enfraquecido e fragmentado após a morte e prisão de seus fundadores, suas células e sucessores continuam ativos.Atividade Principal: Extorsão de comerciantes, monopólio de serviços (gás, internet, transporte), grilagem de terras e construção ilegal.Características: Composta por policiais e ex-policiais, possui forte poder de intimidação e infiltração política. O termo "Escritório do Crime" é frequentemente associado a uma célula de matadores de aluguel ligada a essas estrutura.
- Milícias da Baixada Fluminense:Características: Atuam de forma semelhante às da capital, mas com um controle ainda mais profundo sobre a vida cotidiana e a política local em municípios como Duque de Caxias, Nova Iguaçu e Belford Roxo. A violência é extrema contra quem não coopera.
A guerra entre facções pelo controle do tráfico e a expansão silenciosa e violenta das milícias sobre a vida de milhões de cidadãos exigem uma resposta contínua, integrada e focada do Pode Público tanto na repressão qualificada quanto em políticas sociais que ofereçam alternativas à população vulnerável.
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