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O que o Google revela sobre a violência contra mulheres no Brasil

No Dia Internacional da Mulher, dados mostram aumento nas buscas por violência doméstica, dúvidas básicas sobre agressão e um país que ainda tenta entender a própria realidade

Babi Fava
BABI FAVA

08/03/2026 • 13:41 • Atualizado em 08/03/2026 • 13:41

Dia Internacional da Mulher

Dia Internacional da Mulher

Freepik

No Brasil, a violência contra mulheres deixa rastros e cicatrizes. Alguns aparecem nas estatísticas da polícia, nos tribunais e nos relatórios oficiais, enquanto outros aparecem em lugares menos óbvios, como a barra de pesquisa do Google.

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Todos os dias, milhares de brasileiros digitam perguntas que revelam dúvidas, medos e tentativas de compreender situações que muitas vezes acontecem em quatro paredes, dentro de casa. Neste domingo (8), Dia Internacional da Mulher, olhar para esses dados ajuda a contar uma história diferente, menos feita de frases prontas, batidas e clichês, e mais de sinais concretos sobre como a sociedade está lidando com o problema.

Nos últimos cinco anos, o interesse de busca no Google por “violência doméstica” no Brasil cresceu cerca de 30% em comparação com os cinco anos anteriores. O dado cobre o período entre dezembro de 2020 e dezembro de 2025.

Isoladamente, o número poderia significar muitas coisas: maior conscientização, mais cobertura da imprensa ou simplesmente mais acesso à internet. Entretanto, outros indicadores ajudam a completar o quadro. Entre eles, o fato de que as buscas por “denunciar violência contra mulher” ou “denunciar violência doméstica” aumentaram aproximadamente 60% no mesmo período. Um sinal de que alguém, em algum lugar, está procurando uma saída.

Esse movimento acontece em um país onde os números oficiais continuam alarmantes. Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Brasil registrou 1.518 feminicídios em 2025, o maior número desde que o crime passou a ser tipificado pela legislação brasileira. Na prática, significa que quatro mulheres são assassinadas por dia por razões de gênero.

A maioria dessas mortes acontece em um cenário íntimo e silencioso. Estudos indicam que mais de 80% das vítimas são mortas por parceiros ou ex-parceiros, e que a casa, o lar, o espaço que deveria representar proteção, é o local onde ocorre grande parte dos crimes.

O país que pergunta ao Google o que é violência

Talvez os dados mais reveladores não estejam apenas nas estatísticas de mortes, já tão banalizadas, mas também nas perguntas que as pessoas fazem na ferramenta de busca.

Isto é, as mortes são o retrato mais brutal da violência contra mulheres, mas as buscas na internet ajudam a iluminar o que muitas vezes vem antes delas: o ambiente social em que essa violência nasce, cresce e, em alguns casos, se repete até chegar ao extremo.

Entre as perguntas mais buscadas no Brasil sobre violência doméstica aparece a pergunta “quem sofre mais violência doméstica: homem ou mulher?”. Uma dúvida que parece deslocada no tempo, com uma resposta que já é conhecida há décadas por pesquisadores, autoridades, organismos internacionais e as próprias vítimas. As mulheres são as principais vítimas. Mesmo assim, a pergunta continua sendo feita, o que prova que o óbvio precisa ser dito, redito, repetido.

Para além da desinformação, o dado mostra que, em parte da sociedade, o problema ainda precisa ser explicado desde o começo. Quando o assunto passa a ser o que caracteriza uma agressão, as buscas deixam isso ainda mais claro. No Brasil, pessoas recorrem ao Google para perguntar coisas como:

“Empurrão é agressão?”“Puxar cabelo é agressão?”“Pegar pelo braço é agressão física?”“Grito é agressão?”“Cuspir na cara é agressão?”“Encurralar na parede é agressão?”“Escolher o que a mulher veste é agressão?”

Essas são algumas das perguntas mais feitas, no ano passado, sobre “agressão”. Elas indicam que, em muitos casos, a discussão sobre violência contra a mulher ainda começa no ponto mais básico: reconhecer que certos comportamentos são, sim, violência.

É como se parte do país ainda estivesse tentando aprender o vocabulário mínimo para nomear o que acontece dentro de tantas casas.

Os dados do Google Trends também contam uma história mais longa sobre esse tema no Brasil. No início da série histórica da ferramenta, entre 2005 e 2006, o interesse por buscas relacionadas à violência doméstica era alto. Foi nesse período que o país criou o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres e sancionou a Lei Maria da Penha, considerada um marco no enfrentamento da violência de gênero.

Nos anos seguintes, o interesse diminuiu — movimento que especialistas associam a uma certa estabilização do debate público. A partir de 2014, porém, as buscas voltaram a crescer e seguiram em alta até 2022, permanecendo desde então em patamares elevados. É como se a sociedade tivesse voltado a olhar com mais atenção para um problema que nunca deixou de existir.

Enquanto isso, os números da Justiça também avançam. Dados do Conselho Nacional de Justiça indicam que mais de 15 mil julgamentos relacionados a feminicídio ocorreram em 2025, um aumento em relação ao ano anterior. No mesmo período, centenas de milhares de medidas protetivas foram concedidas a mulheres vítimas de violência doméstica em todo o país.

Os dados expõem um paradoxo. O Brasil tem hoje algumas das legislações mais robustas do mundo para enfrentar a violência de gênero — entre elas a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio. Ainda assim, o problema persiste. Parte da explicação está no fato de que a violência doméstica raramente começa com um crime extremo. Na maioria das vezes, ela se constrói aos poucos, em uma sequência de episódios que parecem menores quando vistos isoladamente: controle, humilhação, intimidação, isolamento.

São gestos que muitas vezes ainda precisam ser explicados, discutidos ou até confirmados como violência. Talvez por isso tantas pessoas recorram ao Google para perguntar se essas situações são, de fato, agressão. Porque reconhecer a violência costuma ser o primeiro passo para interrompê-la.

No Dia Internacional da Mulher, é comum ouvir discursos sobre conquistas e avanços — e eles existem e merecem sim, com muito custo, serem celebrados. Entretanto, ainda há outra conversa acontecendo em paralelo, silenciosa, digitada em milhões de teclados. Ela aparece em perguntas simples, quase sussurradas. Perguntas que revelam dúvida, medo e, às vezes, um pedido de ajuda disfarçado de pesquisa.

Observar essas buscas não resolve o problema. Mas ajuda a enxergá-lo com mais nitidez.