
Jennifer Pabst, Bernardo e Paulo Edson da Cunha Jr
Arquivo Pessoal
Desde 5 de abril de 2023, a casa onde vivia Bernardo Pabst da Cunha, então com 5 anos, não voltou a ser a mesma. Os brinquedos, os desenhos e as pequenas lembranças do menino permanecem no apartamento, mas Jennifer Pabst, de 42 anos, e Paulo Edson da Cunha Jr., de 44, ainda tentam reorganizar a rotina após a perda do filho.
Bernardo foi uma das quatro crianças assassinadas no ataque à creche Cantinho do Bom Pastor, em Blumenau (SC). Segundo os pais, naquele dia, o menino chegou ao local por volta das 6h30. Poucas horas depois, a família receberia a notícia que mudaria tudo. “Sempre reforçamos nas palestras: os pais nunca imaginam qual será o último momento com o filho”, diz Jennifer.
Mais de dois anos após a tragédia, o casal fala sobre luto, fé, a relação que quase não resistiu, outras perdas que vieram no caminho — e sobre Otto, o bebê que agora esperam como símbolo de reconstrução.
Cinco anos para gerar um sonho

Bernardo foi um grande sonho realizado para os pais
Antes de Bernardo existir, houve outro filho: Davi. Um bebê esperado por cinco anos, após tratamentos, cirurgia e uma espera longa que quase fez o casal desistir.
“Nós já tínhamos entregado. Pensamos que talvez não fosse para sermos pais. Decidimos viver a vida, viajar… e quando relaxamos, o Davi veio”, lembra Jennifer.
A gestação terminou em aborto — e, três meses depois, Bernardo chegou. “Ele foi a materialização do nosso sonho”, conta. “Vivemos intensamente com ele… e quando tiraram ele de nós outra vez, tiraram o chão.”
“A maior de todas as perdas”
Perder um filho já é devastador. Perder dois, num intervalo de cinco anos, é quase indescritível. Mas o atentado — tão inesperado quanto brutal — quebrou algo além do coração dos pais: desmontou a rotina, os vínculos, o sentido do futuro.
“As pessoas acham que o tempo deixa mais leve. Não deixa. A saudade sufoca”, diz Jennifer. “Estou de férias e penso: ele estaria aqui comigo. São as pequenas coisas que doem.”
A morte de Bernardo abalou não apenas o casal.
“Meu pai teve pensamentos suicidas. Minha mãe entrou em depressão. E nós dois tivemos de enfiar o nosso luto no bolso para cuidar dos nossos pais”, diz ela.
Somente agora, dois anos depois, eles dizem estar “vivendo o próprio luto”.
Quase não sobreviveram como casal

Paulo e Jennifer
Jennifer e Paulo estão juntos há 23 anos. Sempre foram, como ela descreve, uma “família margarina”: sorridentes nas fotos, afetuosos no dia a dia, parceiros de rotina.
Mas o luto abriu rachaduras.
“Tivemos dois caminhos: ou nos entregávamos à depressão, ou nos uníamos para enfrentar a vida pela falta do nosso filho”, diz Paulo.
“Um entendia a dor do outro, mas estávamos em fases diferentes: eu me aproximei de Deus; ele se revoltou”, conta Jennifer. “Era como puxar cordas para lados opostos.”
O silêncio do apartamento — antes cheio das risadas de Bernardo — tornou-se sufocante. O medo, a insegurança e a dor quase separaram o casal. “A ausência dele dentro de casa era gritante”, lembra.
Foi preciso reconstruir não só o casamento, mas também as próprias identidades.
“Antes de ter filho, éramos Paulo e Jennifer. Depois, nos tornamos pais. E, após a perda, precisamos nos redescobrir”, diz ele.
Nova perda
Alguns meses após o atentado, decidiram tentar engravidar. Jennifer já havia passado dos 40 anos, e o tempo começava a pesar. Em março, veio uma nova gestação: Joanna, que se revelou uma gravidez ectópica e terminou com a retirada da trompa esquerda.
“Foi devastador. Tive medo de cair numa depressão e não sobreviver a mais essa perda.”
Mesmo assim, seguiram — e decidiram continuar tentando.
Hoje, esperam Otto, um bebê que, segundo eles, devolveu cor à casa.
“Nosso apartamento respira o Bernardo. Ele cresceu aqui. A chegada do Otto trouxe nova energia, um sentido de continuar.”
Mas junto veio o medo. “As primeiras 12 semanas foram as mais desafiadoras da minha vida. Eu tinha receio de curtir a barriga e algo ser tirado de novo.”
A terapeuta e os amigos que também perderam filhos ajudam a acalmar a angústia.
“Quando nasce um pai e uma mãe, nasce um medo”, reflete Jennifer. “E depois de tudo… ele vai ficar conosco para sempre. Eu já era muito zelosa com o Bernardo, mas posso me tornar ainda mais protetora com o Otto.”
Da dor, nasceu um projeto: Vamos Salvar o Dia

Logo após o ataque, Jennifer e Paulo se uniram a outras famílias e criaram o projeto Vamos Salvar o Dia, hoje reconhecido nacionalmente nas discussões sobre segurança escolar. Em dois anos, conseguiram mudanças em lei federal e atuam diretamente com o comitê estadual de segurança escolar, o INTEGRA.
A parte mais forte do trabalho, dizem, são as palestras para pais.
“Não adianta ter câmeras, muros, segurança armada… se dentro de casa a criança não se sente amada”, explica Paulo. “O assassino do meu filho buscava notoriedade porque não se sentia importante para ninguém. A base é o amor.”
Eles percorrem escolas, prefeituras e entidades. Falam sobre rotina, presença, responsabilidade — e sobre o último abraço que não sabiam que seria o último.
A chegada de Otto

Paulo e Jennifer estão à espera de Otto
“O Otto é um grande testemunho de Deus na nossa vida. Entregar um filho para Deus não é fácil. Escolhemos seguir. Se Deus permitiu, é porque ainda temos uma missão. É por isso que estamos aqui.”
Paulo completa:
“O Bernardo foi o nosso presente. O Otto é a nossa esperança.”
Eles reforçam que nenhuma criança substitui outra, e que a saudade permanece — apenas ocupa um outro lugar.
Entre o luto e a expectativa pela chegada do bebê, o casal tenta reconstruir a rotina. Não como antes — porque isso não é possível —, mas como duas pessoas que precisaram reaprender a existir.
“A gente reaprendeu a viver”, completa Jennifer.
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