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Eles perderam filho em atentado e hoje falam sobre superação e novo bebê

Jennifer Pabst e Paulo Cunha ainda sofrem com a morte de Bernardo Pabst da Cunha, de 5 anos, uma das quatro vítimas do atentado à creche Cantinho do Bom Pastor, em abril de 2023

GABRIELLE PEDRO

05/12/2025 • 17:21 • Atualizado em 05/12/2025 • 17:21

Jennifer Pabst, Bernardo e Paulo Edson da Cunha Jr

Jennifer Pabst, Bernardo e Paulo Edson da Cunha Jr

Arquivo Pessoal

Desde 5 de abril de 2023, a casa onde vivia Bernardo Pabst da Cunha, então com 5 anos, não voltou a ser a mesma. Os brinquedos, os desenhos e as pequenas lembranças do menino permanecem no apartamento, mas Jennifer Pabst, de 42 anos, e Paulo Edson da Cunha Jr., de 44, ainda tentam reorganizar a rotina após a perda do filho.

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Bernardo foi uma das quatro crianças assassinadas no ataque à creche Cantinho do Bom Pastor, em Blumenau (SC). Segundo os pais, naquele dia, o menino chegou ao local por volta das 6h30. Poucas horas depois, a família receberia a notícia que mudaria tudo. “Sempre reforçamos nas palestras: os pais nunca imaginam qual será o último momento com o filho”, diz Jennifer.

Mais de dois anos após a tragédia, o casal fala sobre luto, fé, a relação que quase não resistiu, outras perdas que vieram no caminho — e sobre Otto, o bebê que agora esperam como símbolo de reconstrução.

Cinco anos para gerar um sonho

Bernardo foi um grande sonho realizado para os pais

Bernardo foi um grande sonho realizado para os pais

Antes de Bernardo existir, houve outro filho: Davi. Um bebê esperado por cinco anos, após tratamentos, cirurgia e uma espera longa que quase fez o casal desistir.

“Nós já tínhamos entregado. Pensamos que talvez não fosse para sermos pais. Decidimos viver a vida, viajar… e quando relaxamos, o Davi veio”, lembra Jennifer.

A gestação terminou em aborto — e, três meses depois, Bernardo chegou. “Ele foi a materialização do nosso sonho”, conta. “Vivemos intensamente com ele… e quando tiraram ele de nós outra vez, tiraram o chão.”

“A maior de todas as perdas”

Perder um filho já é devastador. Perder dois, num intervalo de cinco anos, é quase indescritível. Mas o atentado — tão inesperado quanto brutal — quebrou algo além do coração dos pais: desmontou a rotina, os vínculos, o sentido do futuro.

“As pessoas acham que o tempo deixa mais leve. Não deixa. A saudade sufoca”, diz Jennifer. “Estou de férias e penso: ele estaria aqui comigo. São as pequenas coisas que doem.”

A morte de Bernardo abalou não apenas o casal.

“Meu pai teve pensamentos suicidas. Minha mãe entrou em depressão. E nós dois tivemos de enfiar o nosso luto no bolso para cuidar dos nossos pais”, diz ela.

Somente agora, dois anos depois, eles dizem estar “vivendo o próprio luto”.

Quase não sobreviveram como casal

Paulo e Jennifer

Paulo e Jennifer

Jennifer e Paulo estão juntos há 23 anos. Sempre foram, como ela descreve, uma “família margarina”: sorridentes nas fotos, afetuosos no dia a dia, parceiros de rotina.

Mas o luto abriu rachaduras.

“Tivemos dois caminhos: ou nos entregávamos à depressão, ou nos uníamos para enfrentar a vida pela falta do nosso filho”, diz Paulo.

“Um entendia a dor do outro, mas estávamos em fases diferentes: eu me aproximei de Deus; ele se revoltou”, conta Jennifer. “Era como puxar cordas para lados opostos.”

O silêncio do apartamento — antes cheio das risadas de Bernardo — tornou-se sufocante. O medo, a insegurança e a dor quase separaram o casal. “A ausência dele dentro de casa era gritante”, lembra.

Foi preciso reconstruir não só o casamento, mas também as próprias identidades.

“Antes de ter filho, éramos Paulo e Jennifer. Depois, nos tornamos pais. E, após a perda, precisamos nos redescobrir”, diz ele.

Nova perda

Alguns meses após o atentado, decidiram tentar engravidar. Jennifer já havia passado dos 40 anos, e o tempo começava a pesar. Em março, veio uma nova gestação: Joanna, que se revelou uma gravidez ectópica e terminou com a retirada da trompa esquerda.

“Foi devastador. Tive medo de cair numa depressão e não sobreviver a mais essa perda.”

Mesmo assim, seguiram — e decidiram continuar tentando.

Hoje, esperam Otto, um bebê que, segundo eles, devolveu cor à casa.

“Nosso apartamento respira o Bernardo. Ele cresceu aqui. A chegada do Otto trouxe nova energia, um sentido de continuar.”

Mas junto veio o medo. “As primeiras 12 semanas foram as mais desafiadoras da minha vida. Eu tinha receio de curtir a barriga e algo ser tirado de novo.”

A terapeuta e os amigos que também perderam filhos ajudam a acalmar a angústia.

“Quando nasce um pai e uma mãe, nasce um medo”, reflete Jennifer. “E depois de tudo… ele vai ficar conosco para sempre. Eu já era muito zelosa com o Bernardo, mas posso me tornar ainda mais protetora com o Otto.”

Da dor, nasceu um projeto: Vamos Salvar o Dia

Logo após o ataque, Jennifer e Paulo se uniram a outras famílias e criaram o projeto Vamos Salvar o Dia, hoje reconhecido nacionalmente nas discussões sobre segurança escolar. Em dois anos, conseguiram mudanças em lei federal e atuam diretamente com o comitê estadual de segurança escolar, o INTEGRA.

A parte mais forte do trabalho, dizem, são as palestras para pais.

“Não adianta ter câmeras, muros, segurança armada… se dentro de casa a criança não se sente amada”, explica Paulo. “O assassino do meu filho buscava notoriedade porque não se sentia importante para ninguém. A base é o amor.”

Eles percorrem escolas, prefeituras e entidades. Falam sobre rotina, presença, responsabilidade — e sobre o último abraço que não sabiam que seria o último.

A chegada de Otto

Paulo e Jennifer estão à espera de Otto

Paulo e Jennifer estão à espera de Otto

“O Otto é um grande testemunho de Deus na nossa vida. Entregar um filho para Deus não é fácil. Escolhemos seguir. Se Deus permitiu, é porque ainda temos uma missão. É por isso que estamos aqui.”

Paulo completa:

“O Bernardo foi o nosso presente. O Otto é a nossa esperança.”

Eles reforçam que nenhuma criança substitui outra, e que a saudade permanece — apenas ocupa um outro lugar.

Entre o luto e a expectativa pela chegada do bebê, o casal tenta reconstruir a rotina. Não como antes — porque isso não é possível —, mas como duas pessoas que precisaram reaprender a existir.

“A gente reaprendeu a viver”, completa Jennifer.