Sob o falso pretexto de oferecer tratamento e acolhimento para dependentes químicos, a Clínica Terra Santa Videira, localizada no município de Candeias, na região metropolitana de Salvador, escondia uma rotina de violência, tortura e cárcere privado. O estabelecimento, que operava de forma clandestina há mais de dois anos, sem alvará do Corpo de Bombeiros ou permissão da Vigilância Sanitária, teve o esquema desmantelado após uma operação da Polícia Civil que resgatou cerca de 40 internos.
A farsa do tratamento e o custo para as famílias
Para manter os entes na instituição, as famílias dos pacientes pagavam mensalidades que chegavam a R$ 1.300. Os parentes enviavam os acolhidos acreditando na promessa de reabilitação para dependência química, mas, na realidade, financiavam involuntariamente um ambiente de privações e castigos graves.
Agressões, afogamentos e o 'quartinho do amor'
As investigações policiais e os depoimentos das vítimas detalham uma estrutura voltada à punição física e psicológica sistemática:
O 'Quartinho do Amor': Nome dado ironicamente pelos suspeitos a um cômodo isolado onde aconteciam sessões de espancamento. No local, pacientes relataram ser pendurados de cabeça para baixo e agredidos. Sobreviventes relataram também agressões físicas frequentes nas mãos utilizando utensílios domésticos, como colheres.
Ameaças de afogamento no lago: Nos fundos da propriedade, próximo a um lago, funcionava outro ponto de castigos severos. As vítimas eram levadas até lá para sofrer investidas e ameaças de afogamento.
Trabalho forçado: Em varreduras feitas na área de mata vizinha, os agentes investigaram denúncias de que os internos eram obrigados a escavar buracos no terreno sob coerção e intimidação.
Alertas, mortes e o estopim das investigações
As suspeitas em torno da instituição ganharam força no fim de 2025, após a descoberta do interno Geovane Santana Lopes, que sofreu graves queimaduras nas dependências do local. Geovane permaneceu internado por cinco meses, mas faleceu em maio deste ano devido às complicações dos ferimentos.
A fiscalização sobre a unidade se intensificou após o desaparecimento de um motorista prestador de serviços da clínica. O corpo do funcionário foi localizado carbonizado em uma área de mata no município vizinho de Camaçari.
Ação policial e desfecho
Durante a incursão na unidade, a Polícia Civil deteve em flagrante o administrador e gerente do local, Charles Vinícius Souza da Silva Almeida, por tortura e maus-tratos. Ele é apontado como braço direito do proprietário da instituição, Moisés Jesus Leal, que não foi encontrado durante o cumprimento dos mandados e segue procurado pelas autoridades.
Os 39 internos resgatados foram submetidos a exames de corpo de delito para comprovação das lesões e entregues de volta aos cuidados de seus familiares. Todo o material apreendido nas buscas na clínica e nas residências dos suspeitos passará por perícia técnica.

