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Entenda o que está por trás do acordo nuclear entre EUA e Arábia Saudita

A Arábia Saudita vai receber tecnologia americana para seu programa nuclear, com a contrapartida de que empresas norte-americanas sejam priorizadas nesse processo

Adriana Wainstok
ADRIANA WAINSTOK

24/07/2026 • 14:19 • Atualizado em 24/07/2026 • 14:20

Mundo afora
Donald Trump na cúpula da Otan em Ancara, na Turquia

Donald Trump na cúpula da Otan em Ancara, na Turquia

REUTERS/Jonathan Ernst

Resumo

Anúncio do presidente Donald Trump condiciona o acordo nuclear com a Arábia Saudita ao reconhecimento do Estado de Israel, surpreendendo ao incluir uma exigência política não revelada anteriormente e ainda dependente de aprovação do Congresso dos Estados Unidos.

Negociação prevê transferência de tecnologia nuclear americana para fins civis à Arábia Saudita, com benefícios econômicos bilionários para empresas norte-americanas, mas levanta preocupações sobre proliferação nuclear e corrida armamentista, devido à permissão para enriquecimento de urânio sob supervisão dos Estados Unidos, mas sem exigência de inspeções rigorosas pela Agência Internacional de Energia Atômica.

Aliança estratégica entre Estados Unidos e Arábia Saudita é vista como tentativa de manter o reino na esfera de influência americana e evitar aproximação com China ou Rússia, enquanto aprovação legislativa ainda é necessária e especialistas alertam para riscos de instabilidade e falta de garantias contra uso militar da tecnologia.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse nesta quinta-feira (23) que o acordo nuclear anunciado com a Arábia Saudita está totalmente condicionado ao reconhecimento do Estado de Israel pelo país árabe. A condição, no entanto, não havia sido mencionada quando os primeiros detalhes desse acordo, que ainda precisa ser aprovado pelo Congresso norte-americano, foram revelados.

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A princípio, os objetivos dos Estados Unidos pareciam ser mais econômicos do que políticos. A Arábia Saudita vai receber tecnologia americana para seu programa nuclear, com a contrapartida de que empresas norte-americanas sejam priorizadas nesse processo. O acordo, portanto, significaria bilhões de dólares em investimentos e contratos para empresas americanas.

Mesmo assim, o anúncio, da forma que foi feito, com um acordo flexível para a Arábia Saudita, surpreendeu e trouxe preocupações. O projeto terá duração de trinta anos e pode permitir o enriquecimento de urânio em solo saudita, de acordo com os Estados Unidos, sob supervisão de Washington.

Trump garantiu que esse enriquecimento será em baixas porcentagens, somente para uso civil. Lembra-se aqui que o urânio enriquecido a 90% serve de matéria-prima para a produção de bombas atômicas. Tradicionalmente, quem faz fiscalizações desse tipo não são governos, mas a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) da ONU. Esta, por enquanto, não parece estar inclusa neste acordo.

Parlamentares e especialistas em segurança temem que a iniciativa estimule uma corrida armamentista na região, nos moldes da Guerra Fria, já marcada por tensões entre Estados Unidos, Israel e Irã. A Arábia Saudita já afirmou anteriormente que, se o Irã tiver uma arma nuclear, eles também terão uma. Por enquanto, no entanto, eles não têm a tecnologia necessária.

É exatamente daí que vem a preocupação e, se eles tiverem acesso ao chamado "Ciclo do Combustível Nuclear", mesmo que o objetivo agora seja enriquecer 3% para fins civis, eles podem, com um laboratório secreto por exemplo, chegar a 90%. Não há garantias.

Países como a Coreia do Norte fizeram isso. Aliás, pode-se até pensar no caso do Irã. O país persa recebeu do próprio governo norte-americano, no período da monarquia do Xá Pahlavi, o primeiro reator nuclear de teste para enriquecimento de urânio. Pouco depois, houve a Revolução Islâmica, em 1979, com um governo que pede a morte dos Estados Unidos. Agora, o governo norte-americano alega que o Irã estava perto de conseguir enriquecer o urânio o suficiente para ter uma bomba atômica em seus laboratórios secretos.

Considerando todos esses pontos, por que então os Estados Unidos arriscariam fornecer essa tecnologia à Arábia Saudita sem grandes garantias? A resposta é um jogo político.

Reconhecimento de Israel e a Criação de um Estado Palestino

Donald Trump afirmou em uma publicação nas redes sociais que o acordo com a Arábia Saudita está “totalmente” condicionado ao reconhecimento de Israel. Este anúncio fez cair por terra o entendimento de que o governo Trump priorizava apenas fins econômicos com esse acordo. Segundo Donald Trump, as relações diplomáticas seriam estabelecidas por meio dos Acordos de Abraão, que Emirados Árabes Unidos, Bahrein e, posteriormente, Marrocos, Sudão e Cazaquistão também assinaram reconhecendo o Estado judeu.

"O Acordo Nuclear Civil (…) está totalmente condicionado à adesão da Arábia Saudita aos respeitados e bem-sucedidos Acordos de Abraão. Os Estados Unidos não se opõem a instalações nucleares civis (sem enriquecimento de urânio)." — Donald Trump em publicação nas redes sociais

Para entender melhor esse objetivo político, é importante estabelecer que, apesar das boas relações cultivadas entre a Arábia Saudita e os Estados Unidos, Israel, principalmente por causa da questão palestina, não entra nessa equação. O acordo com a Arábia Saudita tampouco é novidade e vem sendo negociado há anos; especialistas afirmam que esteve relativamente próximo de um fechamento no governo Biden.

O acordo de Joe Biden previa explicitamente esse reconhecimento de Israel, enquanto a Arábia Saudita argumentava que, para isso, também precisaria haver um Estado palestino. As negociações foram por terra em 7 de outubro de 2023, com os ataques terroristas do Hamas contra Israel, que foram respondidos com uma força brutal em Gaza. Evidências mostram, inclusive, que o timing escolhido pelo Hamas para os ataques tinha parcialmente o objetivo de também acabar com esse acordo.

O fato é que este objetivo político volta ao centro da pauta, com Trump usando as palavras "totalmente condicionado". Perguntada sobre o porquê dessa condição não ter sido revelada antes, Karoline Leavitt, porta-voz da Casa Branca, não quis comentar e garantiu que, se Trump está falando que isso é uma possibilidade, é porque ele já está tendo conversas com os sauditas há muito tempo.

O governo da Arábia Saudita, no entanto, não comentou a respeito até a última atualização desta reportagem. Se acontecer, será um marco histórico, mas é difícil pensar nesse reconhecimento, ainda mais nesse contexto de guerra e com tropas de Israel ocupando partes de Gaza e do Líbano — apesar do início da desocupação deste último com a criação das zonas-piloto — e sem o reconhecimento de um Estado palestino por Israel.

Um acordo do jeito que está, sem essa conquista política para os Estados Unidos, parece um acordo fraco, com concessões exacerbadas que podem arriscar a frágil estabilidade na região e, de fato, ser combustível para uma nova corrida armamentista.

Risco de proliferação de armas nucleares

Existe um segundo ponto importante para os Estados Unidos: o jogo de influências no tabuleiro internacional. A Arábia Saudita já manifestou seu interesse em obter uma arma nuclear anteriormente, principalmente se o Irã obtiver uma. Rússia, Estados Unidos, China, França, Reino Unido, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte têm, comprovadamente, armas nucleares. Dessa lista, temos inimigos políticos dos Estados Unidos.

Ou seja, um acordo com a Arábia Saudita agora pode significar evitar um problema futuro, evitar que a Arábia Saudita busque essa tecnologia com outro parceiro e os Estados Unidos percam totalmente o controle sobre a situação nuclear de um importante ator do Oriente Médio.

O risco, no entanto, é alto. Os Estados Unidos têm um acordo nuclear com os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, e a assinatura desse acordo mais vantajoso para a Arábia Saudita pode significar um retorno de outros países aliados dos Estados Unidos, que vão querer as mesmas condições.

Diferentemente do acordo firmado entre Estados Unidos e Emirados Árabes Unidos em 2009, o texto não exige que a Arábia Saudita renuncie ao enriquecimento de urânio nem prevê a adoção do Protocolo Adicional da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

As relações diplomáticas entre a Arábia Saudita e os Estados Unidos estabeleceram-se oficialmente em 1933 e consolidaram-se como uma aliança estratégica fundamental em fevereiro de 1945. Mas o alinhamento sofre oscilações e tensões periódicas, como durante o embargo do petróleo na década de 1970 ou divergências geopolíticas pontuais.

Ou seja, apesar da aliança ter permanecido intacta até agora, ela não é tão antiga assim. E, assim como a aliança norte-americana com o Irã mudou em 1979, com a queda da monarquia e a entrada do governo dos aiatolás, nada garante que uma ruptura não possa acontecer com a Arábia Saudita.

No fim, esse acordo parece ser fundamentalmente baseado em confiança, mas uma confiança que tem como objetivo manter a Arábia Saudita na zona de influência norte-americana. Um risco, mas que por enquanto o governo americano parece entender valer a pena.

Próximos Passos

Acordo 123: O instrumento é previsto na Lei de Energia Atômica dos Estados Unidos para cooperação nuclear civil com outros países.

Prazo de validade: Terá validade de 30 anos e permite que empresas americanas participem da construção da infraestrutura nuclear saudita, incluindo reatores e, possivelmente, instalações de enriquecimento de urânio.

Fins civis: A Arábia Saudita poderá desenvolver um programa nuclear para fins civis e, segundo autoridades americanas, o enriquecimento de urânio será limitado aos níveis necessários para geração de energia, e não para armamentos.

Falta de exigência rígida: Diferentemente do acordo firmado entre Estados Unidos e Emirados Árabes Unidos em 2009, o texto não exige que a Arábia Saudita renuncie ao enriquecimento de urânio nem prevê a adoção do Protocolo Adicional da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), mecanismo que permite inspeções mais rigorosas e com pouco aviso prévio. Esse é o principal ponto de preocupação entre especialistas em não proliferação nuclear.

Objetivos econômicos e geopolíticos: O governo Trump afirma que o acordo fortalece a segurança energética da Arábia Saudita, cria oportunidades bilionárias para empresas americanas e mantém Riad na esfera de influência dos Estados Unidos, evitando que o reino busque cooperação nuclear com países como China ou Rússia.

Aprovação legislativa: O texto ainda precisa passar pelo Congresso americano. Os parlamentares têm 90 dias para analisá-lo. Caso seja rejeitado, Trump pode vetar a decisão, sendo necessários os votos de dois terços da Câmara e do Senado para derrubar esse veto. Sendo assim, Trump tem boas chances de aprovar o acordo, mas ainda falta ouvir o lado saudita.

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