A recente operação militar dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na captura do ditador Nicolás Maduro e da ex-primeira-dama, representa um marco no reordenamento do equilíbrio de poder no Hemisfério Ocidental.
Para o especialista em segurança e ações militares Alessandro Visacro, o episódio demonstra o fim de um período de "negligência" norte-americana na região e um retorno ao uso calibrado da força para proteger zonas de influência primária contra o avanço de potências como China, Rússia e Irã.
Em entrevista ao Jornal Gente, Visacro destacou que a operação foi extremamente complexa, envolvendo cerca de 150 aeronaves e decolagens de mais de 20 bases diferentes.
O especialista ressaltou que o sucesso da ação militar foi, inquestionavelmente, precedido por uma robusta atividade de inteligência, que provavelmente contou com o apoio de colaboradores infiltrados, tanto civis quanto militares, dentro do próprio regime venezuelano.
Geopolítica e o uso calibrado da força
Na visão de Alessandro Visacro, os Estados Unidos adotaram na Venezuela a mesma estratégia utilizada recentemente contra infraestruturas nucleares no Irã: o uso do instrumento militar não como ocupação em massa, mas como uma ferramenta para abrir um leque de opções políticas. Para o analista, o objetivo foi promover a mudança de regime em Caracas sem causar o caos imediato que uma invasão convencional de grande porte provocaria.
O controle sobre as ricas reservas de petróleo e ouro da Venezuela é um componente crucial neste tabuleiro. Visacro avalia que a presença de potências extrarregionais antagonizando os interesses americanos na América Latina tornou-se um problema de instabilidade regional insustentável para a administração de Donald Trump. O especialista aponta que a captura de Maduro serve como um recado direto às chamadas "potências revisionistas" que buscam desafiar a hegemonia ocidental.
Ameaça à Colômbia e o fator eleitoral
Durante a entrevista, foi analisada a declaração de Trump sobre uma possível operação na Colômbia, país que ele classificou como "doente". Embora o presidente americano tenha sugerido que uma intervenção "soa bem", Visacro considera improvável uma ação militar imediata. Ele recorda que a Colômbia possui uma histórica relação de assistência militar com os EUA e que as eleições presidenciais colombianas, marcadas para maio, devem ser o foco de Washington no curto prazo.
Entretanto, o especialista faz um alerta importante: as informações que Maduro pode fornecer sob custódia americana têm o potencial de influenciar diretamente os processos eleitorais na região. "Dependendo do que o Maduro se predispor a falar, a eleição na Colômbia em maio e a eleição no Brasil em novembro talvez estejam nas mãos dos Estados Unidos", ponderou Visacro.
Soberania e o exemplo brasileiro
Questionado sobre a violação do Direito Internacional, Visacro foi enfático ao citar o conceito de realpolitik: "É uma violação do direito internacional, sim, mas e daí? O que predomina de fato é a política do mundo como ele é". Para o professor, a lição para o Brasil é que a soberania não é uma dádiva, mas algo que o Estado precisa exercer com o monopólio da força e zelo constante.
O especialista ressalta que o Brasil possui hoje "défices de soberania" evidentes em áreas como a Amazónia Ocidental, dominada por garimpos ilegais, e em enclaves urbanos controlados pelo crime organizado. Visacro conclui afirmando que a diplomacia brasileira não pode ser uma extensão do populismo doméstico e que o país precisa de se preparar para os desafios do futuro. "Nós, brasileiros, precisamos de esquecer 1970 e olhar para este mundo extremamente complexo de 2070 que está sendo escancarado na nossa frente", finalizou.
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