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Estado dos EUA autoriza IA para renovar prescrições médicas sem médicos

Apesar de receber elogios do governo de Utah, a iniciativa também enfrenta críticas de médicos e especialistas, que alertam para possíveis riscos à segurança dos pacientes sem monitoramento rigoroso

Da redação
DA REDAÇÃO

07/01/2026 • 12:22 • Atualizado em 07/01/2026 • 12:22

Freepik

O estado de Utah, nos Estados Unidos, lançou um programa piloto inédito no país que permite que sistemas de inteligência artificial participem diretamente da renovação de prescrições médicas para pacientes com doenças crônicas. A iniciativa, anunciada pelo Departamento de Comércio de Utah em parceria com a startup de saúde digital Doctronic, autoriza a tecnologia a renovar medicamentos de forma autônoma, sem a intervenção direta de um médico em casos considerados de rotina.

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Segundo o governo estadual, trata-se do primeiro programa oficialmente aprovado nos EUA em que uma IA pode, dentro de um ambiente regulatório controlado, atuar legalmente em decisões médicas relacionadas a prescrições. A proposta está inserida no chamado regulatory sandbox de Utah, um modelo que flexibiliza regras temporariamente para testar inovações sob supervisão do poder público.

De acordo com as autoridades, o foco do projeto é combater a não adesão a tratamentos médicos — apontada como uma das principais causas de piora de quadros clínicos evitáveis e de gastos desnecessários em saúde. Estima-se que renovações de receitas representem cerca de 80% de toda a atividade relacionada a medicamentos no sistema de saúde americano.

A plataforma da Doctronic permite que pacientes renovem receitas em poucos minutos, após responderem a um questionário clínico semelhante ao realizado por médicos. Caso não haja sinais de alerta, a prescrição é enviada diretamente à farmácia. Medicamentos considerados de maior risco, como opioides, drogas para TDAH e injetáveis, estão fora do escopo do piloto.

“O objetivo é mostrar que uma IA bem regulada pode melhorar o acesso, reduzir atrasos no tratamento e evitar internações desnecessárias, mantendo os médicos no centro do cuidado”, afirmou Margaret Woolley Busse, diretora executiva do Departamento de Comércio de Utah.

A empresa afirma que a tecnologia é programada para priorizar a segurança e escalar automaticamente casos duvidosos para avaliação humana. Além disso, os primeiros 250 pedidos de cada classe de medicamento serão revisados por médicos antes que a IA passe a operar de forma totalmente autônoma naquele grupo.

Especialistas alertam para riscos

Apesar do entusiasmo do governo e da empresa, o programa levanta preocupações entre médicos, reguladores e especialistas em saúde. Reportagem do site norte-americano Politico destaca que o projeto é um teste de alto risco sobre até que ponto pacientes e autoridades estão dispostos a confiar em algoritmos em decisões médicas sensíveis.

Entidades médicas alertam que a automação pode deixar passar sinais clínicos sutis, interações medicamentosas complexas ou até ser explorada de forma indevida por pessoas tentando obter medicamentos de forma irregular.

“Embora a IA tenha enorme potencial para transformar a medicina, sem a participação do médico ela também pode representar riscos sérios para pacientes”, afirmou o presidente da Associação Médica Americana, Dr. John Whyte, em nota.

Outro ponto de atenção é a ausência, até o momento, de um posicionamento claro da FDA. Embora estados regulem a prática da medicina, a agência pode entender que sistemas de IA usados para tratar ou prevenir doenças se enquadram como dispositivos médicos, o que poderia levar a exigências adicionais ou até suspender a expansão do projeto.

O próprio governo de Utah reconhece o risco político e institucional da iniciativa. “Para nós, também é um risco. Precisamos garantir que isso seja feito com cuidado, para que a população confie que o estado não está sendo irresponsável”, afirmou Busse ao Politico.

Modelo pode se espalhar

Mesmo com as críticas, Utah aposta que o projeto poderá servir de referência nacional. Estados como Arizona, Texas e Wyoming já discutem iniciativas semelhantes, e a Doctronic afirma estar em negociações para expandir o modelo.

Os resultados do piloto — incluindo segurança clínica, adesão ao tratamento, satisfação dos pacientes e impacto nos custos — serão divulgados publicamente e podem influenciar futuras políticas estaduais e federais sobre o uso de inteligência artificial na saúde.

Enquanto isso, o programa reacende um debate central: até onde a tecnologia pode substituir decisões humanas na medicina sem comprometer a segurança dos pacientes.

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