
Raimundo Nazareno de Souza Ávila é investigado pela Polícia Federal por ser funcionário fantasma no Amapá
Divulgação
O vice-presidente do Conselho Federal de Odontologia, Raimundo Nazareno de Souza Ávila, afastado do cargo por decisão judicial, está sendo investigado pela Polícia Federal por ser funcionário fantasma no Amapá ao mesmo tempo em que exercia o cargo no CFO.
Em julho de 2022, Nazareno se tornou servidor público federal no Amapá, vinculado ao Ministério da Fazenda, na função de odontólogo, recebendo um salário de R$ 6.255,61 para cumprir 40 horas semanais. A partir de junho do ano seguinte, ele assumiu um cargo na Secretaria de Estado da Saúde (SESA).
Desde 2021, Nazareno ocupava a vice-presidência do CFO, o que, em tese, não conflitava com o emprego no Amapá. No entanto, descobriu-se que o odontólogo fraudava sua folha de ponto, preenchendo rigorosamente os horários de entrada, pausa para almoço, e saída. Em dois anos de serviço, período investigado pelas autoridades, não há um minuto de atraso registrado na folha do funcionário. A ‘pontualidade britânica’ chamou a atenção dos procuradores do conselho.


A maior parte das folhas de ponto têm a assinatura de Cássia Oliveira Klein e Daniel de Moraes Lucas, ambos coordenadores estaduais de saúde bucal do estado do Amapá e chefes imediatos de Nazareno, o que, de acordo com a acusação, mostra que eles sabiam e foram complacentes.
Uma denúncia foi feita ao presidente do CFO, em maio de 2025, por procuradores da própria autarquia, que acessaram registros do Portal da Transparência do Conselho Federal de Odontologia e constataram que o então vice-presidente realizou diversas viagens e cumpriu agendas nos dias em que deveria estar trabalhando na Secretaria de Estado da Saúde do Amapá. Somente em 2024, o CFO emitiu 97 passagens aéreas em nome dele, totalizando quase R$ 300 mil.
Em uma reunião entre membros do conselho, Nazareno foi gravado enquanto explicava aos colegas o esquema. A reportagem teve acesso à gravação.
“Eu estou lotado na Coordenadoria de Saúde Bucal do estado, e a dentista é amiga da gente”, disse. O vice-presidente confessa ainda que sequer ia até Macapá para assinar o ponto, mas que fazia tudo à distância. Segundo ele, a chefe sabia do seu trabalho no CFO, que ele precisava viajar muito, e por isso era “tranquilo”. “Amanhã é dia de assinar”, finalizou.
Nazareno é coronel da reserva da Polícia Militar do Amapá, e segundo ele próprio revela no áudio, além dos salários de vice-presidente do CFO e de odontólogo em Macapá, ainda recebia uma aposentadoria de R$ 52 mil.
De acordo com os próprios denunciantes, o cargo de grande poder e influência que Nazareno exercia no conselho e sua boa relação com o corpo administrativo teriam sido fatores determinantes para que a denúncia não avançasse.
CFO pede dinheiro de volta
Somente depois de Nazareno deixar a vice-presidência do conselho é que passou a ser investigado. Um inquérito foi instaurado na Delegacia de Repressão a Crimes Fazendários da PF, que apura possíveis crimes de peculato, falsificação de documento público e estelionato. Em maio deste ano, ele também passou a responder por improbidade administrativa após o próprio CFO denunciá-lo ao Ministério Público Federal.
No documento, o corpo jurídico da autarquia afirma que a prática ilícita de Nazareno causou “prejuízo ao erário público”, e calculou de quanto seria esse gasto. A estimativa de dano aos cofres do Conselho Federal de Odontologia em diárias de hotel, auxílio viagem, passagens e outros pagamentos feitos em dias que coincidem com a assinatura das folhas de ponto é de R$ 1.482.828,88, pagos por dentistas de todo o país. Se for condenado na ação de improbidade administrativa, ele pode ter que devolver todo o valor.
Ele foi afastado do cargo junto a praticamente todo o alto escalão da autarquia, quando, em maio de 2025, veio à tona um escândalo milionário envolvendo a cúpula do CFO. Descobriu-se um desvio de R$ 40 milhões disfarçado de investimento.
O valor foi transferido para um fundo financeiro que, segundo a presidência da época, teria sumido com o dinheiro. Depois das denúncias de desvio de verba, quase todos os membros do conselho foram afastados de seus cargos, inclusive Raimundo Nazareno.
Outro lado
A defesa de Nazareno disse que “no período questionado, ele exercia funções de natureza eminentemente estratégica, consultiva e de apoio técnico à formulação de políticas públicas, sem atendimento clínico direto à população”, o que justificaria sua ausência no local de trabalho.
Sobre os prejuízos financeiros denunciados pelo CFO, seus advogados respondem que “seus deslocamentos eram compatíveis com as atribuições exercidas, contavam com autorização e não ocasionaram qualquer dano ao erário ou descontinuidade do serviço público”.
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