Se o Banco Central tivesse agido antes, se a CVM tivesse agido antes, será que o caso Master teria virado essa bola de neve, que só de buraco no fundo garantidor de crédito vai gerar 40 bilhões de reais e mais 6 bilhões talvez?
Hoje, porque dançou o Will Bank, que era o banco digital do grupo, vamos ver um caso concreto. Vamos voltar no tempo, abril de 2024. Banco Master resolveu emprestar para uma empresa de participações imobiliárias, uma empresinha qualquer. Sabe quanto? Meio bilhão de reais.
Aí o que a empresa fez com essa bufunfa? Transferiu para um fundo criado 20 dias antes. Aí em 90 minutos esse fundo colocou dinheiro num segundo fundo. Em três minutos o segundo fundo colocou a grana no terceiro fundo. Os três fundos administrados pela REAG, que também foi liquidada no rolo do Master. E a empresinha imobiliária que eu falei foi montada por uma ex-funcionária da REAG.
E a CVM não viu nada disso. Sendo que cabe a ela fiscalizar o mercado de fundos. Em tese, ela teria acesso aos dados, recebe informes regulares sobre carteiras de fundos, tem as demonstrações financeiras. Não falta tecnologia para identificar giro anormal de patrimônio, fundos recém-criados recebendo volumes gigantes, concentração num único ativo e sucessão amalucada de transferências como aconteceu.
Dá para saber que tudo aconteceu dentro do mesmo grupo econômico, dentro da REAG, o que é suspeitíssimo. Dá para saber que os fundos foram criados dias antes, não anos antes. Dá para saber que o crescimento patrimonial foi rápido demais. Dá para saber um monte de coisa.
E aí, de duas uma: ou a CVM viu e não fez nada, o que significa que os sistemas dela são malucos, são caducos; ou ela não viu, e isso quer dizer que os sistemas dela são ainda mais caducos do que a gente imagina. Então, se a CVM tivesse agido em 2024, quando essa história aconteceu, é provável, é possível que o Banco Central pudesse ter agido antes. Como não aconteceu nada, a bomba atômica estourou agora.
E o governo? Ah, o governo que adora tirar o corpo fora, não é com ele, resolveu se reunir para discutir um absurdo: 'CVM não está funcionando muito bem, então vamos passar a tarefa da fiscalização do mercado de capitais para o Banco Central, porque ela não está preparada direito.' E pelo visto não está mesmo, mas o Banco Central muito menos, porque ele não cuida do mercado de capitais e nem deve cuidar, não tem estrutura para isso. Aliás, em nenhum país sério do mundo a fiscalização do sistema bancário e o mercado de capitais ficam debaixo da mesma instituição.
Então, o que o governo tem que fazer em vez de bater na CVM? Recuperar a CVM. Começa com a diretoria que está largada. São cinco diretores, sabe quantos o governo nomeou? Dois. Faltam três. Passa pela equipe que está envelhecendo, pelo orçamento que está minguado. Tem uma taxa de fiscalização que o mercado paga, que arrecada um bilhão de reais por ano. Aí o governo pega o dinheiro e cobre o rombo do orçamento e deixa a CVM ao deus-dará. Aí, quando estoura um escândalo, o que acontece? O governo finge que não é com ele.
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