Jornal da Band

AMAN: mulheres têm concorrência três vezes maior para ingressar na Academia

Enquanto homens tem 60 candidatos por vaga, segmento feminino disputam na base de 170 candidatas para cada vaga; turma de 2026 é apenas a 8ª com mulheres em 215 anos de academia

Márcio Campos
MÁRCIO CAMPOS

04/07/2026 • 08:00 • Atualizado em 04/07/2026 • 08:00

As mulheres que querem seguir a carreira militar da linha bélica no Exército Brasileiro enfrentam quase três vezes mais concorrência do que os homens para ingressar na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende (RJ), uma das instituições de ensino mais disputadas do País. Enquanto os candidatos homens competem na proporção de 60 por vaga, as mulheres disputam na base de 170 candidatas para cada vaga.

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O caminho até a Academia começa na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), em Campinas, interior de São Paulo, onde o jovem presta o concurso público de admissão. São 440 vagas oferecidas todos os anos, sendo 400 destinadas a homens e 40 a mulheres. Os aprovados cumprem um ano em Campinas e, depois, mais quatro na AMAN, em Resende.

A AMAN funciona como uma faculdade, uma escola de nível superior. Ao final do curso, o aprovado se forma bacharel em Ciências Militares e é declarado aspirante a oficial. A diferença é que se trata de uma faculdade onde o universitário já vive a rotina do quartel desde o início da formação.

Para o coronel Fábio Gladzik, chefe da Divisão de Ensino, o foco da Academia está na preparação de lideranças. "O nosso diferencial é que a gente busca aquelas disciplinas focadas ali não só para o recém-egresso da academia, que é o aspirante a oficial tenente, mas os futuros líderes do Exército", afirma.

Dos mais de 1.500 cadetes da AMAN, apenas 10% são mulheres — 134 do total de 1.507. Para que elas chegassem à Academia, algumas condutas foram revistas, entre elas a presença de homens na ala feminina. No dia a dia, porém, não há tratamento diferenciado: as cadetes carregam a mesma mochila de 20 quilos e usam o mesmo capacete de quase dois quilos exigidos dos colegas.

"O que a gente sente um pouco de dificuldade é na questão do peso da mochila, mas é claro que a gente acostuma mesmo assim", conta a cadete Andressa Araújo.

A rotina de formação combina a base teórica, dada em sala de aula, com os exercícios de campo. No campo de instruções da AMAN, os cadetes participam de manobras que simulam o combate a veículos blindados de uma força inimiga — a parte que mais empolga os futuros oficiais.

Entre quem escolheu essa vida está a cadete Aline Isabele Martins, curitibana e caçula de três filhas, única a seguir a profissão do pai, capitão aposentado da Força Terrestre. "Nunca tive segunda opção, sempre foi isso. Meu pai é militar, sempre tive essa mentalidade na minha vida, ser militar era a única opção", diz.

A presença feminina na Academia é recente. A tenente Fabiana Muzzi foi uma das 23 mulheres a se formar na primeira turma de cadetes com participação de mulheres da AMAN, grupo que chegou à instituição em 17 de janeiro de 2018.

Hoje, ela atua como instrutora do primeiro ano e tem entre suas missões repassar conhecimentos sobre o armamento do Exército Brasileiro. "Eu sempre gostei dessa parte de materiais de emprego militar, particularmente viaturas, armamentos", afirma.

Ao se formar, o cadete é designado para qualquer região do Brasil, onde passa a comandar pelotões e tropas. Seguindo na carreira, pode alcançar novas patentes e chegar ao generalato — trajetória que, desde a formatura da primeira turma com mulheres, também passou a estar aberta às oficiais combatentes da Força Terrestre.