Apenas quatro em cada dez assassinatos cometidos no Brasil são esclarecidos pela polícia, índice muito abaixo da média mundial. Especialistas apontam que a falta de estrutura das forças de segurança prejudica o avanço das investigações e deixa milhares de famílias sem respostas.
É o caso de Valéria Aparecido, que há oito anos espera respostas sobre a morte do filho, Arthur, de cinco anos. O menino foi baleado na cabeça na noite de Ano-Novo, enquanto a família estava reunida no quintal de casa para ver os fogos. Levado ao hospital, não resistiu.
Até hoje o crime não foi esclarecido e ninguém foi preso. "É um descaso, num contexto de falta de segurança. Nós somos mais um, né? Na estatística. Infelizmente, o caso do meu filho não foi o último", lamenta a mãe.
A baixa capacidade do país de solucionar homicídios é um dos indicadores mais preocupantes da segurança pública. Entre 2020 e 2024, só 40% dos assassinatos no Brasil foram solucionados pela polícia — patamar bem inferior ao observado em outras partes do mundo.
A média global é de 63% dos casos esclarecidos. Na Europa, o índice passa de 90%; Oceania e Ásia chegam a cerca de 70%. Até países da África registram taxas superiores às das Américas (52% contra 43%).
Para o coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, Rafael Rocha, responsável pela pesquisa, fatores socioeconômicos estão na raiz do problema. "Essas sociedades que são mais desiguais tendem a ter menor confiança nas polícias", explica.
Segundo ele, esse afastamento compromete diretamente a apuração dos crimes. "Essa desigualdade, que pode virar desconfiança ou afastamento entre população e polícias, prejudica muito a investigação de homicídios, porque a investigação de homicídios no Brasil hoje ela ainda é muito pautada na testemunha e na colaboração da população", afirma.
Para mudar esse cenário, os especialistas defendem melhorias em alguns pontos considerados essenciais: a qualidade do registro do boletim de ocorrência, com informações mais precisas; a preservação adequada do local do crime; e a padronização dos protocolos de investigação.
Somam-se a isso desafios estruturais das polícias, como a falta de infraestrutura, as dificuldades técnicas e operacionais e a carência de capacitação forense, apontados como entraves para elevar o índice de resolução dos casos.
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