Jornal da Band

Sem amparo legal, brasileiras buscam outros países para realizar aborto

Brasil tem uma das legislações mais restritivas do mundo, fazendo com que grávidas busquem alternativas em nações onde o procedimento é liberado

Da redação
DA REDAÇÃO

21/08/2024 • 18:38 • Atualizado em 21/08/2024 • 18:38

Por ser restrito a apenas casos específicos no Brasil, o aborto muitas vezes é realizado por brasileiras fora do país. Mesmo com a proibição em boa parte do mundo, a Organização Mundial da Saúde aponta que dos 78 milhões de abortos que ocorrem por ano, quase 60% são feitos de forma insegura, causando riscos à saúde da mulher. Para Débora Diniz, antropóloga e pesquisadora, o Brasil é um dos países que têm a lei mais restritiva sobre o aborto. "A última discussão sobre o assunto era um projeto de lei que criaria mais barreiras para vítimas de estupro, faria o Brasil comparável ao Afeganistão", diz. Tais barreiras fizeram a advogada Rebeca Mendes ser a primeira mulher latino-americana a solicitar na Suprema Corte o direito de fazer um aborto legal, mesmo não se encaixando nas hipóteses permitidas de aborto no Brasil. "Tive o pedido negado, então fui até a Colômbia e realizei um aborto legal, porque precisava cuidar da minha saúde, para meus objetivos e pelos meus dois filhos. Então o bem-estar meu e deles era o principal objetivo", conta. Rebeca até tinha um laudo médico que atestava o desconforto físico e psicológico que a terceira gravidez causou. Ela seguiu sem o apoio do marido, que já era ausente na criação dos dois outros filhos pequenos. Ao retornar de Bogotá, na Colômbia, Rebeca criou o 'Projeto Vivas', que ajuda mulheres e meninas quando o aborto não é considerado legal pela Justiça brasileira. O lenço verde é a bandeira do projeto, que encaminhou em 2023 226 mulheres para a Argentina e Colômbia, países onde o aborto é legalizado. "Passamos as informações de exames necessários, contato da clínica, tudo. Quando essa mulher não tem recursos para custear a viagem, fazemos isso também", diz.

Compartilhar

Defesa do aborto legal é alvo de represálias no Brasil

Débora Diniz, antropóloga e pesquisadora sobre aborto no Brasil, hoje mora fora do país. Não porque quer, mas por sofrer ameaças de morte por defender e coordenar a pesquisa nacional do aborto no país. As ameaças começaram em 2018, quando ela fez uma defesa pública com um grupo a favor da descriminalização do aborto. "Pessoas bastante extremistas, fanáticas. Passaram a enviar ameaças à universidade onde sou professora, à minha família e a mim, é um mecanismo de intimidação, silenciamento do debate público", pontua. Silenciar o debate é uma característica de ditaduras e países autoritários. O aborto é assunto de todos na sociedade, não só das mulheres que colocam as vidas em risco, como indica Rebeca Mendes. "A gente vê que muitas chegam até o Projeto Vivas com gravidezes indesejadas, são abandonadas pelos parceiros. Quando falamos de aborto exclusivamente a gente pensa apenas na mulher, nunca no outro parceiro. A gravidez nunca é feita sozinha", diz.