Moradores de condomínios de luxo na Região Metropolitana de Salvador enfrentam um apagão de conectividade provocado pelo crime organizado. Criminosos cortaram o cabeamento de fibra óptica e estão impedindo que empresas de telecomunicações realizem reparos ou novas instalações. O objetivo da ação é forçar os residentes a contratarem serviços clandestinos controlados por facções, como o chamado "CVnet".
O problema afeta diretamente famílias em Camaçari e Lauro de Freitas. Uma moradora, que pediu para não ser identificada, relatou que o atendimento técnico foi negado pela operadora Claro sob a justificativa de falta de segurança pública na região. Em áudios enviados a grupos de mensagens, técnicos de manutenção confirmam que sofrem ameaças de traficantes desde dezembro do ano passado.
Domínio de serviços essenciais gera receita para facções
A estratégia de amedrontar funcionários de concessionárias públicas é o primeiro passo para a implementação do monopólio criminoso. De acordo com a análise de Luiz Requião, especialista em segurança pública, o controle de serviços essenciais, como internet, gás e transporte, tem se tornado uma fonte de renda para o crime organizado tão lucrativa quanto o tráfico de drogas.
"Todas essas cadeias produtivas, ainda que ilícitas, têm sido cada vez mais ocupadas por essas organizações criminosas", avalia Luiz Requião. Para o especialista, a dominação territorial permite que as facções tributem a rotina dos cidadãos, transformando serviços básicos em instrumentos de extorsão e controle social.
O cerceamento da liberdade de escolha gera apreensão entre os moradores. Uma das vítimas desabafa sobre o receio de se tornar refém permanente: "Eu não posso ter o livre-arbítrio de escolher a operadora e meu receio é que, futuramente, eu não possa escolher mais nada". A falta de conexão prejudica profissionais em regime de home office e estudantes que dependem da rede para atividades acadêmicas.
Histórico de violência e silêncio das autoridades
A resistência das empresas em operar nessas áreas fundamenta-se em casos recentes de violência extrema. Em dezembro de 2025, três funcionários de uma provedora de internet foram encontrados mortos no bairro Alto do Cabrito, em Salvador. A principal linha de investigação indica que eles foram assassinados após a empresa se recusar a pagar "pedágio" aos criminosos para trabalhar no local.
Procurada para comentar a situação nos condomínios da Região Metropolitana, a Secretaria de Segurança Pública da Bahia não quis se pronunciar sobre o assunto. Enquanto isso, moradores afirmam que já acionaram o Ministério Público e registraram boletins de ocorrência, mas as operadoras oficiais continuam sem protocolos de segurança para restabelecer o sinal.
A situação expõe a fragilidade do Estado diante do avanço das facções sobre áreas que, até então, eram consideradas seguras pela alta renda. O controle da infraestrutura digital marca uma nova etapa na expansão das organizações criminosas na Bahia, que agora ditam quais empresas podem ou não cruzar as portarias dos condomínios.
Fique bem informado!
Receba gratuitamente as notícias mais importantes do dia direto no seu e-mail
Escolha quais newsletters quer receber

