Jornal da Band

Criminosos impõem serviço clandestino de internet em condomínios na Bahia

Moradores de áreas de alto padrão em Camaçari e Lauro de Freitas são reféns de facções que impedem o trabalho de operadoras oficiais; técnicos relatam ameaças.

Da redação
DA REDAÇÃO

26/01/2026 • 19:57 • Atualizado em 26/01/2026 • 19:57

Moradores de condomínios de luxo na Região Metropolitana de Salvador enfrentam um apagão de conectividade provocado pelo crime organizado. Criminosos cortaram o cabeamento de fibra óptica e estão impedindo que empresas de telecomunicações realizem reparos ou novas instalações. O objetivo da ação é forçar os residentes a contratarem serviços clandestinos controlados por facções, como o chamado "CVnet".

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O problema afeta diretamente famílias em Camaçari e Lauro de Freitas. Uma moradora, que pediu para não ser identificada, relatou que o atendimento técnico foi negado pela operadora Claro sob a justificativa de falta de segurança pública na região. Em áudios enviados a grupos de mensagens, técnicos de manutenção confirmam que sofrem ameaças de traficantes desde dezembro do ano passado.

Domínio de serviços essenciais gera receita para facções

A estratégia de amedrontar funcionários de concessionárias públicas é o primeiro passo para a implementação do monopólio criminoso. De acordo com a análise de Luiz Requião, especialista em segurança pública, o controle de serviços essenciais, como internet, gás e transporte, tem se tornado uma fonte de renda para o crime organizado tão lucrativa quanto o tráfico de drogas.

"Todas essas cadeias produtivas, ainda que ilícitas, têm sido cada vez mais ocupadas por essas organizações criminosas", avalia Luiz Requião. Para o especialista, a dominação territorial permite que as facções tributem a rotina dos cidadãos, transformando serviços básicos em instrumentos de extorsão e controle social.

O cerceamento da liberdade de escolha gera apreensão entre os moradores. Uma das vítimas desabafa sobre o receio de se tornar refém permanente: "Eu não posso ter o livre-arbítrio de escolher a operadora e meu receio é que, futuramente, eu não possa escolher mais nada". A falta de conexão prejudica profissionais em regime de home office e estudantes que dependem da rede para atividades acadêmicas.

Histórico de violência e silêncio das autoridades

A resistência das empresas em operar nessas áreas fundamenta-se em casos recentes de violência extrema. Em dezembro de 2025, três funcionários de uma provedora de internet foram encontrados mortos no bairro Alto do Cabrito, em Salvador. A principal linha de investigação indica que eles foram assassinados após a empresa se recusar a pagar "pedágio" aos criminosos para trabalhar no local.

Procurada para comentar a situação nos condomínios da Região Metropolitana, a Secretaria de Segurança Pública da Bahia não quis se pronunciar sobre o assunto. Enquanto isso, moradores afirmam que já acionaram o Ministério Público e registraram boletins de ocorrência, mas as operadoras oficiais continuam sem protocolos de segurança para restabelecer o sinal.

A situação expõe a fragilidade do Estado diante do avanço das facções sobre áreas que, até então, eram consideradas seguras pela alta renda. O controle da infraestrutura digital marca uma nova etapa na expansão das organizações criminosas na Bahia, que agora ditam quais empresas podem ou não cruzar as portarias dos condomínios.

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