Jornal da Band

Crise no IBGE: Demissão de coordenadora do PIB gera onda de exonerações

Servidores do instituto relatam "caça às bruxas" sob gestão de Márcio Pochmann; mudanças em cargos estratégicos somam 15 substituições desde 2023.

Alex Gusmão
ALEX GUSMÃO

28/01/2026 • 19:27 • Atualizado em 28/01/2026 • 19:27

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) atravessa uma nova crise institucional marcada por divergências profundas entre a presidência e o corpo técnico. O episódio mais recente envolve a exoneração de Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais e responsável direta pelo cálculo do Produto Interno Bruto (PIB). A saída de Palis, considerada uma das profissionais mais experientes da casa, gerou imediata reação interna.

Compartilhar

Com 24 anos de atuação na área de análise do PIB, Rebeca Palis foi desligada da função de chefia na última semana. Colegas e setores técnicos interpretam a troca como uma retaliação direta, já que a economista assinou cartas manifestando posição contrária a projetos propostos pela atual direção. Em solidariedade à coordenadora, outros três gerentes do setor também deixaram seus cargos, agravando o clima de instabilidade no órgão.

Acusações de "caça às bruxas" e propaganda política

O sentimento entre os servidores das áreas técnicas é de que há um processo de perseguição contra quem questiona as mudanças sugeridas pela presidência. Segundo relatos, o economista Márcio Pochmann, que assumiu o comando do IBGE em 2023, não tem aceitado observações técnicas. Desde sua posse, o instituto já contabilizou pelo menos 15 trocas em postos de comando.

Nesta quarta-feira (28), uma nova exoneração elevou a tensão: Ana Raquel da Silva foi retirada de uma gerência após criticar uma publicação oficial do instituto. O material continha um prefácio assinado pela governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, que elogiava a atual gestão do IBGE e os feitos de seu próprio governo. Para a técnica exonerada, o texto configurava propaganda política dentro de um órgão de Estado que deveria ser pautado pela neutralidade.

Impacto técnico e ilegalidade de fundação

Especialistas e servidores avaliam que a instabilidade pode comprometer entregas fundamentais. O instituto está em processo de atualização do ano de referência para os estudos econômicos — migrando de 2010 para 2021 — e adotando novos parâmetros internacionais. A saída da cúpula responsável pelo PIB ocorre às vésperas da divulgação do crescimento econômico do país, prevista para março.

Outros pontos de atrito envolvem a tentativa de centralização de poder. Entre os projetos questionados estão:

Fundação IBGE Mais: Criada para captação de recursos, a iniciativa foi considerada ilegal pela Controladoria-Geral da União (CGU) após o registro em cartório.

Mudança no Estatuto: Técnicos afirmam que a proposta visava reduzir o poder dos diretores para ampliar a autoridade da presidência.

O que dizem os envolvidos

O Sindicato dos Trabalhadores do IBGE (ASSIBGE) afirma que as críticas técnicas são recebidas com hostilidade pela direção. Segundo Clísia do Couto Oliveira, integrante do sindicato, os servidores que apontam falhas ou sugerem correções são rotulados pela presidência como "corporativistas", "reacionários" ou "conservadores".

Procurado para comentar as denúncias de retaliação e o clima de insegurança institucional, o IBGE limitou-se a confirmar a troca na coordenação de Contas Nacionais. O instituto não explicou os motivos da saída de Rebeca Palis nem se manifestou sobre as reclamações formais de seu corpo técnico.

Tópicos relacionados