Jornal da Band

Deepfake vira arma de golpistas e causa prejuízos milionários no Brasil

Tentativas de fraude com inteligência artificial cresceram 126% em um ano; criminosos imitam celebridades e exploram o senso de urgência das vítimas

Giba Smaniotto
GIBA SMANIOTTO

03/06/2026 • 20:50 • Atualizado em 03/06/2026 • 20:56

Com rostos e vozes cada vez mais perfeitos, as chamadas deepfakes se tornaram uma arma poderosa nas mãos de golpistas. As tentativas de fraude com a tecnologia cresceram 126% no Brasil em apenas um ano, segundo o relatório mais recente da Sumsub, plataforma global de verificação de identidade e prevenção de fraudes.

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A deepfake é um conjunto de técnicas de inteligência artificial usadas para criar ou alterar imagens, vídeos e áudios de forma extremamente realista. A imagem e a voz parecem verdadeiras, mas nada é real. A tecnologia tem sido empregada por criminosos em golpes cada vez mais sofisticados.

Em São Paulo, uma mulher de 59 anos acreditou estar conversando pelo WhatsApp com o ator Keanu Reeves. Convencida por fotos, vídeos e mensagens aparentemente verdadeiros, ela passou a fazer pagamentos sucessivos. O esquema funcionava com a compra de cartões-presente, cujos códigos eram enviados pelo aplicativo, permitindo que os golpistas usassem o dinheiro sem serem identificados.

A vítima chegou a desembolsar mais de R$ 8 mil para ter direito a uma carteira VIP de fã, que também lhe daria a chance de ver o ator de perto em uma possível viagem dele ao Brasil. O cartão nunca chegou. No fim, ela ficou apenas com uma mensagem de agradecimento em português, enviada pelo ator falso.

Em Porto Alegre, um aposentado de 71 anos perdeu cerca de R$ 2,7 milhões ao acreditar em um vídeo falso que simulava uma entrevista entre o apresentador Danilo Gentili e o padre Fábio de Melo com dicas de investimento. Convencido pela aparente credibilidade do conteúdo, ele fez aplicações sucessivas e viu o saldo crescer — mas, ao tentar sacar, descobriu que tudo era fraude. O caso está sob investigação da Polícia Federal, após a Polícia Civil do Rio Grande do Sul arquivar o processo por dificuldade técnica.

A advogada Kezia Miranda, especialista em direito digital, acompanha o rastreamento do dinheiro. Segundo ela, os valores saem da conta da vítima, são convertidos em criptomoedas e seguem para a Ásia — uma rota que, na sua avaliação, exige um esquema sofisticado de evasão de divisas.

Para mostrar a facilidade da tecnologia, Elaine Coimbra, vice-presidente de comunicação e marketing da Associação Brasileira de IA (Abria) e diretora de inovação da ABRADI, produziu em minutos um deepfake em que aparece dizendo: "Bom dia, gente. Estou em Marte falando com vocês".

Ela exibiu ainda diversos vídeos falsos de celebridades — de Gisele Bündchen vendendo o kit antirrugas, que milhares de pessoas compraram sem nada receber, a um falso Brad Pitt que seduzia mulheres alegando estar internado em tratamento contra um câncer.

Segundo a especialista, o que leva as pessoas a cair nesses golpes é a engenharia social: todos os vídeos têm senso de urgência e exigem que o espectador responda ou aja imediatamente. Para ela, o Brasil precisa de uma legislação específica que proteja direitos e invista em letramento digital, especialmente entre os idosos.