A morte de Oliver Grayson, de 3 anos, espancado pelo próprio pai em Viamão, na Grande Porto Alegre, expôs uma vida de violência sofrida por cinco crianças e as falhas de uma rede que deveria protegê-las.
Depois da prisão dos pais, os quatro irmãos de Oliver – de 1, 5, 7 e 9 anos – foram levados a abrigos e passaram por exames, que encontraram diversas lesões nos corpos. Duas irmãs contaram que também eram agredidas pela mãe.
Oliver era filho do americano D'Andre Grayson, de 33 anos, e da japonesa Mayanna Rodgers, de 29. O casal de missionários está no Brasil há nove anos e, segundo a polícia, acumula registros de violência em pelo menos três estados.
O primeiro ocorreu em outubro de 2024, em Águas de Lindóia, no interior paulista, onde os dois são acusados de maus-tratos contra a filha, que na época tinha 7 anos. De acordo com o Ministério Público de São Paulo, o processo foi encaminhado a Palmitos, no interior catarinense, para onde a família se mudou.
Ali, os filhos do casal chegaram a ficar quatro meses em abrigos por causa dos indícios de violência, mas depois voltaram para os pais. Em setembro do ano passado, a família se mudou novamente, desta vez para o Rio Grande do Sul.
Em Viamão, os Grayson passaram a viver em uma comunidade rural. Vizinhos estranhavam o comportamento do missionário e percebiam as crianças sempre com fome.
"Comiam casca de árvore caída no chão. Foi um vizinho que viu, testemunhou e levou bergamotas para elas", relatou a autônoma Susiane Machado, que disse que as crianças eram mantidas dentro do pátio porque o pai raramente deixava alguém se aproximar.
Um pastor que ajudava a família confirmou o isolamento. Segundo Carlos Roberto, as crianças eram escondidas pelo pai. Quando chegava à casa, só o missionário aparecia no jardim, enquanto os filhos permaneciam dentro.
As falhas da rede de proteção também ficaram evidentes. De acordo com o Conselho Tutelar de Viamão, a primeira denúncia de violência foi feita em novembro de 2025.
Três meses depois, em fevereiro deste ano, os agentes foram à casa da família e não constataram maus-tratos. Uma nova visita estava prevista para a quinta-feira (9), dia em que a morte de Oliver foi confirmada.
Mayanna foi presa preventivamente na quarta e a prisão foi mantida em audiência de custódia. Segundo a defesa, ela também é vítima de violência.
"Junto com os filhos, ela era uma vítima de violência física, emocional e espiritual. Ele se dizia missionário, apesar de não ter nenhuma ligação formal com nenhuma igreja", afirmou a advogada Isabel Cochlar.
A reportagem do Jornal da Band teve acesso a imagens de versículos colados em um armário da casa onde a família vivia. Um deles diz, em inglês, que "assim como a igreja se submete a Cristo, as mulheres devem se submeter aos maridos em tudo".
D'Andre está preso e confessou que espancou o filho porque não gostou da resposta do menino a um "bom dia". O Ministério Público pediu à Interpol colaboração para apurar possíveis crimes cometidos fora do Brasil.
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