O Brasil dá um passo decisivo para encerrar a dependência externa de medicamentos essenciais para a sobrevivência de transplantados. A Fiocruz, por meio de Farmanguinhos, iniciou a produção de todas as etapas do tacrolimo, o primeiro imunossupressor 100% nacional. A medicação é vital para evitar a rejeição de órgãos e, até então, sua fabricação no país dependia da importação de insumos da Índia, o que tornava o fornecimento instável e o custo elevado.
Atualmente, cerca de 100 mil pacientes em todo o país dependem do Sistema Único de Saúde (SUS) para receber o remédio. No mercado, o custo de uma única cartela com 60 comprimidos gira em torno de R$ 2 mil. Com a nacionalização da produção e dos insumos, o objetivo é garantir a soberania tecnológica e assegurar que o tratamento desses pacientes não sofra interrupções por crises logísticas internacionais ou variações de preço.
O risco da interrupção no tratamento
Para quem recebeu um órgão, o tacrolimo não é apenas um remédio, mas a garantia de continuidade da vida. O advogado Marcos Prudente, que passou por um transplante de fígado em 2020, toma o medicamento duas vezes ao dia e relata o temor constante da falta do produto nas farmácias públicas. Segundo ele, a ausência de apenas dois dias de doses já coloca o paciente em risco direto de morte.
Essa preocupação é compartilhada por Luciano Pasoti Monfardini, advogado e professor de Direito, que utiliza o imunossupressor há mais de cinco anos. Luciano, que enfrentou três episódios de rejeição do rim transplantado, conseguiu manter o órgão graças à medicação. Ele reforça que o remédio é tão fundamental quanto a própria cirurgia de transplante, e qualquer falha no cronograma de 12 em 12 horas representa uma ameaça extrema.
Independência tecnológica e próximos passos
A produção nacional completa é vista como um marco de autonomia para o Ministério da Saúde. Segundo Juliana Johansson, coordenadora de Desenvolvimento Tecnológico de Farmanguinhos/Fiocruz, a instituição está plenamente capacitada para entregar o fármaco ao sistema de saúde. A autonomia na produção garante que o Brasil tenha recursos internos para manter o fornecimento, independentemente de oscilações do mercado estrangeiro.
O processo agora entra em fases técnicas cruciais antes de chegar às mãos da população:
Testes de qualidade: Verificação da eficácia da produção local.
Registro na Anvisa: Aprovação regulatória necessária para o fornecimento.
Escala industrial: Produção em larga escala para abastecer a rede pública nacional.
Brasil na vanguarda mundial de transplantes
O investimento em tecnologia nacional reflete a importância do Brasil no cenário global. O país é o segundo maior realizador de transplantes do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Em 2025, o sistema brasileiro realizou quase 10 mil procedimentos, sendo o de rim o mais frequente (6.700), seguido pelo de fígado (2.573) e coração (428).
Com a fabricação própria do tacrolimo, a esperança é de que o preço final diminua e que as redes de solidariedade improvisadas entre pacientes — que muitas vezes dividem comprimidos quando o estoque oficial falha — deixem de ser necessárias. A meta é garantir que nenhum brasileiro perca um órgão transplantado por dificuldades logísticas ou falta de insumos importados.
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