Jornal da Band

Instituto Baccarelli transforma comunidade do Heliópolis através da música

Primeira orquestra de favela do Brasil celebra três décadas com expansão para 13 periferias de São Paulo e inauguração de teatro próprio

Giba Smaniotto
GIBA SMANIOTTO

04/04/2026 • 22:17 • Atualizado em 04/04/2026 • 22:17

O que nasceu como o sonho de um "homem maluco" em 1996 consolidou-se, em 2026, como uma das maiores referências de arte e inclusão social do país. O Instituto Baccarelli completa 30 anos de atuação na favela de Heliópolis, a "Cidade do Sol", na zona sul de São Paulo. A trajetória mostra como a música erudita foi capaz de romper as barreiras geográficas e sociais da periferia.

Compartilhar

O projeto foi idealizado pelo maestro Silvio Baccarelli logo após um incêndio devastar grande parte da comunidade de Heliópolis. Movido pelo desejo de ajudar as famílias atingidas, o maestro colocou em prática o ideal de transformar a realidade de jovens por meio de uma orquestra de cordas.

O início, contudo, enfrentou desafios estruturais e sociais, incluindo a pressão econômica sobre os alunos para que abandonassem os estudos em busca de renda, obstáculo superado pela persistência do fundador em trazer as crianças de volta às aulas.

Expansão e legado cultural nas periferias

Atualmente, o impacto do instituto transcende os limites de Heliópolis. Segundo o maestro e CEO do Instituto Baccarelli, Edilson Venturelli, a metodologia e o conhecimento adquiridos na comunidade foram levados para outras 13 regiões periféricas da capital paulista. "Foram 30 anos de muita luta, mas de muita conquista", afirma Venturelli, ressaltando a quebra de paradigmas ao levar o ensino musical de excelência para onde antes o acesso era escasso.

A estrutura física também acompanhou esse crescimento. No final do ano passado, o complexo ganhou o Teatro Baccarelli, uma sala de concertos moderna que simboliza a profissionalização do projeto. Para a maestrina Silmara Drezzo, que integra a instituição há 24 anos, a semente plantada pelo fundador reverberá diariamente na formação de novos talentos.

A música como ferramenta de emancipação

Para os alunos e ex-alunos, o instituto representa a descoberta de novas possibilidades de vida. Nicole, hoje com 36 anos, ingressou no coral aos 10 e atualmente vive exclusivamente da música, atuando como professora e instrumentista. Ela destaca que o projeto permite que jovens da favela enxerguem que podem ocupar espaços como a medicina, a engenharia ou a música profissional, viajando pelo mundo através de sua arte.

O sentimento é compartilhado pelas novas gerações que ocupam as salas de ensaio em 2026. Entre os adolescentes que frequentam o instituto, a música é descrita não apenas como uma aspiração profissional, mas como um refúgio emocional e uma forma de expressão.

Relatos colhidos na comunidade reforçam que, para além do aprendizado técnico, o ambiente do Baccarelli oferece paz e uma via para esquecer as dificuldades cotidianas, provando que a "Cidade do Sol" encontrou na música a sua nota mais brilhante.