No epicentro das tensões que redesenha o tabuleiro global, uma potência de 93 milhões de habitantes se impõe. Para entender o Irã, é preciso olhar para um mapa estrategicamente posicionado.
Ele faz fronteira com sete nações, entre elas o Iraque, a Turquia, o Afeganistão e o Paquistão. É banhado pelo Mar Cáspio e Golfo Pérsico. Uma encruzilhada geográfica cercada por outros vizinhos complexos, como Armênia, Azerbaijão e Turcomenistão. Essa posição privilegiada sempre foi alvo de cobiça.
"O Irã é uma força regional. Ele tem um papel fundamental no Oriente Médio desde o mundo antigo, segue sendo ao longo da história e hoje é um participante central quando a gente quer compreender a geopolítica do Oriente Médio como um todo", diz Otávio Luiz Vieira Pinto, professor de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Desde o século XIX, o país enfrenta um ciclo contínuo de pressões externas. Mas o ponto definitivo de ruptura aconteceu em 1979: a Revolução Islâmica alterou a geopolítica da região e estabeleceu uma oposição ferrenha e recíproca aos Estados Unidos e a Israel.“É interessante pensar como a história que eles reivindicam está sempre voltando para essa ideia. Sempre há o invasor, sempre há o grande império à nossa espreita e nós precisamos nos proteger. É um país que, em certa medida, na sua construção moderna, ele se viu sempre sob ameaça de grandes impérios", diz Fernando Pureza, professor de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
"Toda a posição dos persas em relação a essa guerra, dos iranianos como um todo, Ela não é restrita a fanatismos, mas ela é talvez muito mais profunda dentro da relação que esse povo tem com a sua própria história", completa.Mas antes da política moderna, existe a identidade. Irã é uma palavra persa que significa “terra dos arianos”, uma referência direta à etnia que moldou aquela região. Para entender o presente, precisamos andar pelo tempo.
No seu auge, a Pérsia foi o maior império que o mundo já tinha visto, estendendo-se por três continentes e unindo povos sob uma única lei. O Império Persa quase dominou o mundo antigo, mas houve um ponto decisivo: a Batalha de Salamina. No conflito, o avanço persa sobre a Europa foi contido pelos gregos, uma derrota que moldou para sempre o que hoje chamamos de mundo ocidental.
“Uma civilização, eu diria, que tem aí pelo menos 2.500 anos, mais ou menos. É óbvio que não é uma história contínua, tem quebras, tem alterações, mas é possível notar no que hoje é o país Irã, uma base cultural, uma base étnica e uma base histórica que é construída ao longo dos séculos.”, diz Vieira.
Das raízes persas ao domínio romano, o mitraísmo foi a religião de mistérios que deixou marcas permanentes no Ocidente, transformando rituais iranianos ao sol, da base do que atualmente chamamos de Natal e Domingo.
Muito antes do progresso ocidental, a antiga Pérsia já ditava o ritmo da inovação global. Do primeiro sistema de correios à primeira carta de direitos humanos da história.
Na ciência, o legado é vital. Enquanto a Europa vivia o obscurantismo medieval, médicos persas, como Avicena, escreviam manuais, que seriam a base da medicina por seis séculos.
“Eles vão ajudar a dar o tom da arquitetura e da estética islâmica. Histórias persas vão se incorporar ao Islã e vão dar origem, por exemplo, a histórias famosas como as 'Mil e Uma Noites'. A gente costuma pensar nas ‘Mil e Uma Noites’ como uma história árabe, mas ela tem uma origem persa", conta o professor Vieira.
Da invenção da álgebra, que hoje move nossos algoritmos, aos complexos sistemas de irrigação no deserto, a herança persa é gigantesca ainda no presente.
"É importante entender que o Irã não é uma civilização exótica e perigosa, simplesmente é uma civilização que faz parte da nossa herança histórica e civilizacional, como fazem parte os gregos, os romanos, como faz parte o cristianismo", completa o coordenador de estudos do Oriente Médio da Universidade Federal Fluminense (UFF), Paulo Hilu Pinto.
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