Jornal da Band

Juiz de Fora vive cenário de ‘bairros fantasmas’ com casas interditadas

Mortes em Minas Gerais chegam a 69, com 4 desaparecidos, enquanto solidariedade marca limpeza de residências e evacuação de áreas de risco na Zona da Mata

Marcus Sadok
MARCUS SADOK

27/02/2026 • 20:10 • Atualizado em 27/02/2026 • 20:10

As fortes chuvas que atingem Minas Gerais já deixaram 69 mortos e quatro pessoas desaparecidas, segundo atualização da Polícia Civil. Na Zona da Mata, Juiz de Fora enfrenta o esvaziamento de bairros inteiros após a interdição de casas pela Defesa Civil, cenário descrito por moradores como o de ‘bairros fantasmas’.

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Solidariedade em meio à lama

No bairro Vittorino Braga, o morador Roberto tenta, pela quinta vez na semana, limpar a casa tomada pela lama depois de novas inundações. Ele conta que não tem saído do local desde o início da semana para ajudar na recuperação.

Estou aqui desde segunda-feira. Trabalho, mas meu patrão deixou eu ficar ajudando. Eu só tenho a agradecer a Deus por tudo

Roberto se emociona ao falar da rede de apoio que se formou no entorno da comunidade.

O que me surpreendeu são as pessoas que vêm ajudar. Toda hora chega marmita, desodorante, sabonete, toalha, chinelo, produto de limpeza. A casa vive cheia de doações. Eu queria agradecer a vocês

Entre os voluntários está o pedreiro Yuri Corrêa, que se apresentou espontaneamente para ajudar na limpeza das casas atingidas.

Cheguei aqui, perguntei se precisava de ajuda e vim ajudar

Bairros esvaziados e risco de desabamento

A solidariedade se soma ao trabalho técnico. Um grupo de engenheiros, geólogos e arquitetos se organizou para atuar junto à Defesa Civil, avaliando morros, encostas e imóveis em áreas de risco para orientar novas interdições ou liberações.

Ao percorrer a cidade, o impacto é visível. No bairro Três Moinhos, todas as casas de um trecho foram interditadas por risco de desabamento e deslizamento. Moradores tiveram que sair às pressas, muitas vezes sem conseguir recolher móveis e objetos pessoais.

Ruas permanecem isoladas, com móveis espalhados e portas abertas em residências vazias. Parte dos atingidos permanece à beira da estrada, à espera de orientação sobre quando poderá voltar, em meio a um silêncio que contrasta com o ritmo habitual da vizinhança.

Moradores tentam salvar o que restou

Em meio ao abandono, alguns moradores retornam apenas para resgatar o que consideram indispensável. É o caso de Eva, de 75 anos, que voltou ao bairro com a neta para buscar a gata de estimação, Nina.

Ela está com a gente há quase 10 anos, é tudo para nós, o mascote da família. Deus não pode deixar a gente perder

Eva explica que a gata é tratada como parte da família.

Ela é tudo para esses meninos aqui. Tem veterinário, remédio, tudo pago. Se não der, minha filha parcela no cartão. É vacinada, castrada, é da casa, não fica do lado de fora

Ubá também sofre com enchentes

A cerca de 110 quilômetros de Juiz de Fora, a cidade de Ubá também está devastada pelos temporais. O Rio Ubá, que corta o município, transbordou novamente, alagando ruas e destruindo imóveis comerciais.

O comércio do centro ficou severamente danificado. Em uma das lojas, carros foram arrastados pela correnteza e acabaram amontoados sobre a lama dentro do estabelecimento, evidenciando a força da água.

Enquanto Bombeiros continuam a busca por quatro desaparecidos no estado e a Polícia Civil trabalha na identificação das vítimas, moradores e voluntários tentam, dia após dia, reconstruir parte da rotina em meio aos prejuízos materiais e às marcas deixadas pela tragédia.