A produção da indústria brasileira caiu 0,2% em maio, na primeira retração do ano, e o resultado expõe um setor que sente como poucos as condições difíceis para crescer: juros muito elevados, inflação e alto endividamento.
O que tem evitado números piores é sobretudo a produção de petróleo, que vem batendo recorde — e mesmo o leve recuo do segmento em maio deve ser lido como um ajuste natural, não como sinal de fraqueza.
Olhando o acumulado do ano, a indústria ainda cresce 1,4%, mas esse número esconde duas realidades completamente distintas. De um lado, a indústria extrativa avança quase 8%, puxada por petróleo e minerais, produtos muito demandados pelo mundo.
De outro, a indústria de transformação – aquela que fabrica os bens tradicionais do dia a dia – cresce apenas 0,2%. São dois mundos convivendo dentro da mesma estatística, e a média geral acaba mascarando a dificuldade concreta enfrentada pela produção fabril.
Ainda assim, alguns segmentos escapam da regra e sustentam o desempenho da transformação. O IBRE (Instituto Brasileiro de Economia) destaca a indústria farmacêutica, impulsionada por novos medicamentos e pela ampliação da oferta de remédios no SUS.
Estímulos do governo têm segurado a produção de veículos e a construção, enquanto o mercado de trabalho aquecido sustenta a fabricação de alimentos industrializados. São ilhas de fôlego num ambiente que, no conjunto, continua adverso.
O problema é que nenhum desses impulsos resolve o obstáculo de fundo. Com juros tão altos, fica difícil sustentar o crescimento de forma consistente: o crédito caro desestimula tanto o consumo quanto o investimento, e a indústria de transformação, mais dependente da demanda interna, é justamente a que mais sofre com esse aperto.
Enquanto a política monetária seguir restritiva, a tendência é que a distância entre a extrativa e a transformação se mantenha, com o petróleo carregando o resultado e a fábrica tradicional patinando.
No fim, o recado de maio é menos sobre a queda de 0,2% em si e mais sobre o que ela revela. A indústria brasileira não vive uma crise generalizada, mas uma economia partida ao meio, em que o vigor das commodities disfarça a fragilidade do restante.
Reverter esse quadro passa, inevitavelmente, por uma trajetória de juros que devolva capacidade de compra às famílias e previsibilidade a quem produz.
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