Um caso brutal de violência doméstica chocou a cidade de Itapetininga, no interior de São Paulo. A vítima, identificada como Jaqueline, foi mantida em cárcere privado e submetida a 11 horas ininterruptas de tortura física e psicológica praticadas por seu ex-companheiro.
O agressor, Guilherme Henrique Amaral Andriolo, foi preso em flagrante no mesmo dia após a vítima conseguir escapar. Ele responderá pelos crimes de tortura, cárcere privado, estupro e tentativa de feminicídio.
Jogo macabro, navalhas e tatuagem à força
O ataque começou enquanto a vítima ainda dormia. Amarrada pelas mãos e pelos pés, Jaqueline sofreu espancamentos com socos e um pedaço de madeira que resultaram na fratura de seu nariz.
Eu estava dormindo, eu acordei sendo espancada. O meu arrependimento foi ter gritado, porque depois que eu gritei ele falava assim: 'Enquanto eu estiver batendo, se você gritar, eu vou bater mais
Durante o período de cárcere, o agressor montou um jogo de cartas cruel no qual punia a vítima a cada erro:
Ele falou: 'Vou fazer um jogo'. Aí você tem que acertar o que tá nas cartas. 'Se você acertar, não vai acontecer nada, mas se você errar...'. Nisso eu errava, né, eu chutava, e daí ele começava a me furar com a agulha. Então assim, eu errava tudo, aí ele me espancava
Além das agressões com pedaços de madeira e agulhas, o homem utilizou uma navalha para ferir a vítima e fez tatuagens à força em sua pele. Jaqueline só conseguiu escapar e pedir socorro quando o ex-companheiro adormeceu exausto.
O ciclo invisível da violência doméstica
A tragédia vivida por Jaqueline é o ponto extremo de um ciclo de relacionamentos abusivos que costuma dar sinais antes da agressão física grave. No ano anterior, em 2025, a vítima já havia denunciado Guilherme por expor vídeos íntimos dela na internet. Contudo, acabou reatando o relacionamento após promessas de mudança — três meses depois, acabou hospitalizada pelas agressões.
Comportamentos como isolar a mulher de amigos e familiares, controlar finanças, proibir determinadas roupas, ofensas verbais e empurrões são etapas prévias que antecedem a explosão da violência. Especialistas alertam que a dependência emocional e o isolamento social dificultam o rompimento desse ciclo. É o que diz a psicóloga Elisângela Pires.
A vítima demora muito para entender esse excesso de cuidado, que na verdade é um excesso de controle. Isso vai evoluindo até a fase da explosão, onde começam as agressões físicas de fato. Muitas não conseguem sair porque se veem sozinhas, já sem o contato com a família e afastadas dos amigos
Início da recuperação e a luta contra o silêncio
Hospitalizada após o resgate, Jaqueline iniciou os procedimentos médicos e estéticos para tentar remover do corpo as tatuagens e marcas feitas pelo agressor. Apesar dos traumas profundos, ela reforça a importância de denunciar e não se calar diante dos abusos:
O medo existe, a angústia existe dentro de mim, mas não vou me calar jamais. Independentemente de qualquer coisa, jamais
A Band não se cala
O Grupo Bandeirantes lançou nesta semana a campanha "Band Não Se Cala" para reforçar a conscientização e o incentivo às denúncias de agressões, estupros e feminicídios em todo o Brasil. A mobilização pretende engajar a sociedade no acolhimento às vítimas e no enfrentamento da impunidade.
A cada 30 segundos, uma mulher aciona a Polícia Militar para pedir socorro no país. Além disso, as estatísticas indicam o registro de um estupro a cada 6 minutos e um feminicídio a cada 6 horas no Brasil. O quadro expõe uma rotina marcada pelo medo, pela solidão e pelo silêncio das vítimas.
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