Uma das vias mais movimentadas da capital paulista, que conecta bairros estratégicos como Consolação, Bela Vista e Jardim Paulista, está no centro de um debate histórico sobre memória e justiça de gênero. A Rua Peixoto Gomide, que homenageia uma figura influente da elite paulista do século passado, pode ter seu nome alterado para Rua Sofia Gomide, em memória à jovem vítima de um crime brutal cometido pelo próprio pai.
Francisco de Assis Peixoto Gomide Júnior foi um homem de imenso poder político. Advogado e jornalista, ele presidiu o Senado Estadual — cargo que hoje corresponderia à presidência da Assembleia Legislativa — e chegou a ocupar o cargo de governador interino de São Paulo.
No entanto, sua biografia pública esconde um ato de extrema violência doméstica. Em 1906, Peixoto Gomide assassinou a própria filha, Sofia, de apenas 22 anos. O crime ocorreu apenas uma semana antes do casamento da jovem, pois o político não aceitava o relacionamento da filha com o noivo. Após disparar contra Sofia, Peixoto Gomide cometeu suicídio.
O silenciamento histórico
O contraste entre o tratamento dado ao assassino e à vítima é evidente no cenário urbano e até no túmulo da família. Enquanto o pai foi homenageado com uma rua de quase dois quilômetros de extensão, o nome de Sofia foi praticamente apagado da história oficial. No jazigo da família, localizado no Cemitério da Consolação, apenas a placa com o nome dele permanece visível, enquanto a história da vítima foi desprezada por mais de cem anos.
Campanha "Feminicida não é herói"
A iniciativa de renomear a rua faz parte da campanha "Feminicida não é herói", um movimento que reúne projetos para impedir que autores de violência contra a mulher recebam homenagens em espaços públicos da cidade.
O projeto de lei deu um passo importante nesta semana ao ser aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara de Vereadores de São Paulo, que analisou a legalidade da proposta. Agora, o texto segue para votação em plenário. Se aprovada, a mudança de Peixoto Gomide para Sofia Gomide servirá como uma reparação simbólica, retirando o destaque do agressor e devolvendo a dignidade à memória da vítima.
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