O Instituto Baccarelli completa 30 anos consolidado como um dos principais projetos de educação e inserção social do Brasil. A iniciativa, que utiliza a música clássica como ferramenta de transformação, nasceu de uma tragédia: um incêndio devastador em Heliópolis, em 17 de novembro de 1996. Na ocasião, o fogo destruiu mais de 50 barracos e resultou na morte de quatro pessoas, deixando centenas de desabrigados na maior favela de São Paulo.
Sensibilizado pelas imagens das vítimas, o maestro Silvio Baccarelli decidiu agir, desafiando o preconceito da época para levar o ensino de instrumentos de cordas para dentro da comunidade. Três décadas depois, o projeto não apenas formou músicos profissionais, mas tornou-se um "porto seguro" para as famílias da região, elevando a autoestima de jovens e crianças.
O combate ao preconceito na classe artística
O início da trajetória do instituto foi marcado por resistência, inclusive dentro da própria classe artística. Relatos da diretoria da instituição relembram que muitos músicos questionavam a viabilidade de levar a música erudita para a periferia, manifestando o receio de que o gênero "virasse coisa de favela". As dificuldades iniciais incluíam desde a falta de apoio até a negação de teatros para apresentações.
Hoje, a realidade é oposta. O maestro Edilson ressalta que a música clássica foi plenamente apropriada pela comunidade, afirmando que o gênero é, definitivamente, "coisa de favela". O instituto cresceu de uma pequena orquestra de cordas para uma estrutura que atende crianças desde cedo, como o jovem Bernardo, de nove anos, que frequenta as salas de aula do projeto há quatro anos e relata sentir-se livre por meio da cultura brasileira.
O ciclo da transformação: de aluna a professora
A eficácia do Instituto Baccarelli é evidenciada pelo ciclo de formação de seus integrantes. Um exemplo é Juliana, que teve seu primeiro contato com o violino aos 11 anos através do projeto. Após se apaixonar pela sonoridade da primeira turma de cordas que ouviu em Heliópolis, ela seguiu carreira na música.
Atualmente, aos 37 anos, Juliana atua como professora na própria instituição onde aprendeu os primeiros acordes. Para ela, a maior potência do instituto reside na capacidade de fazer com que os jovens consigam enxergar perspectivas além da realidade em que vivem. O trabalho do maestro Baccarelli permanece vivo na formação de novos talentos e no fortalecimento da identidade cultural dos moradores de Heliópolis.
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