Jornal da Band

1 em cada 4 jovens brasileiras acham que "vida não vale a pena ser vivida"

Pesquisa revela que sofrimento emocional é o dobro entre meninas; 43% das entrevistadas relataram desejo de autolesão no último ano.

Olívia Freitas
OLÍVIA FREITAS

27/03/2026 • 21:03 • Atualizado em 27/03/2026 • 21:03

Um levantamento nacional divulgado pelo IBGE acendeu um alerta vermelho sobre a saúde mental da juventude no Brasil. Os dados revelam que o sofrimento emocional atinge de forma muito mais severa as meninas do que os meninos. De acordo com a pesquisa, 25% das adolescentes brasileiras — uma em cada quatro — consideram que "a vida não vale a pena ser vivida", índice que é o dobro do registrado entre os jovens do sexo masculino (12%).

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O estudo analisou questões emocionais de estudantes entre 13 e 17 anos, uma fase de transição considerada decisiva para a formação da personalidade. Além do desânimo profundo, o levantamento aponta que 43,4% das meninas relataram vontade de se machucar de propósito nos últimos 12 meses, frente a 20,5% dos meninos.

A pressão estética e o "tsunami" digital

A pesquisa identifica que as cobranças sociais sobre a aparência seguem como um dos principais gatilhos para o mal-estar emocional. Relatos de estudantes indicam que padrões de vestimenta, corte de cabelo e maquiagem geram uma insegurança constante sobre a aceitação social. O medo do julgamento, seja por estar acima ou abaixo do peso imposto por padrões ideais, é uma realidade onipresente no cotidiano escolar.

Se o desafio da autoaceitação sempre existiu, especialistas e os próprios jovens avaliam que ele ganhou a escala de um "tsunami" com a onipresença dos celulares. As redes sociais são apontadas como ferramentas que mascaram processos e dificuldades, exibindo apenas um recorte idealizado da vida alheia. Essa comparação constante entre a realidade do usuário e o "palco" digital de terceiros aprofunda sentimentos de solidão e exclusão.

Impacto do bullying e insatisfação com o corpo

A vulnerabilidade social e o medo da violência também pesam mais sobre o gênero feminino. Segundo o IBGE, 41% das meninas relataram tristeza constante, contra 16% dos meninos. O bullying, frequentemente motivado por questões de aparência que não se enquadram nos padrões das redes sociais, é mais frequente entre elas (30% contra 24% deles).

Outro dado que chama a atenção é o crescimento da insatisfação corporal ao longo da última década. Em 2015, 23% das jovens diziam estar insatisfeitas com o próprio corpo; hoje, esse número saltou para 36%. A psicóloga e psiquiatra Dra. Maria Amália, do Núcleo de Psiquiatria do Hospital Sírio-Libanês, ressalta que é preciso olhar para o sofrimento psíquico das meninas, mas também questionar se os meninos conseguem expressar suas angústias. Culturalmente, homens têm mais dificuldade em identificar e falar sobre sentimentos, o que pode mascarar dados masculinos.

O papel da escuta e a parceria escola-família

Diante do agravamento dos índices, especialistas defendem que a escola e a família devem atuar como parceiras no acolhimento. A coordenadora pedagógica Nathalie Lunar de Micheline reforça que a escuta ativa é a ferramenta mais eficaz para identificar sinais precoces de transtornos como ansiedade e depressão. "O adolescente precisa ser escutado. Quando notamos algo, nos aproximamos e perguntamos", afirma.

Rodas de conversa e o desenvolvimento de habilidades socioemocionais no ambiente escolar têm ajudado jovens a perceberem que não estão sozinhos em suas inseguranças. O compartilhamento de experiências ajuda a desconstruir a "verdade" das redes sociais e a fortalecer a rede de apoio entre os pares. O foco das instituições agora volta-se para práticas pedagógicas que contribuam para o bem-estar e ajudem a reverter o quadro de isolamento e autodepreciação nessa faixa etária.

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