A evolução tecnológica, que eliminou pilhas de papéis e digitalizou a economia, trouxe consigo uma nova e sofisticada ameaça: o uso de inteligência artificial (IA) para a prática de crimes. Criminosos estão utilizando ferramentas de manipulação de imagem para criar fotos ultra-realistas de vítimas segurando seus próprios documentos, facilitando golpes que antes eram considerados complexos ou improváveis.
Uma vítima, que preferiu não se identificar, quase contraiu uma dívida enorme ao descobrir que golpistas estavam prestes a retirar um carro zero quilômetro em seu nome. "Eles usaram uma IA e a minha foto da CNH. Estava tudo quase pronto para a pessoa retirar o veículo", relatou. O crime só foi evitado porque a vítima percebeu o acesso indevido à sua conta oficial e agiu rapidamente.
A mecânica da fraude digital
O golpe começa com a invasão da conta da vítima no portal Gov.br, onde o governo centraliza documentos digitais e serviços ao cidadão. Após obterem acesso aos dados da Carteira Nacional de Habilitação (CNH), os criminosos utilizam softwares de inteligência artificial para gerar uma imagem da pessoa segurando o documento — uma exigência comum de segurança em aplicativos de bancos e concessionárias.
A riqueza de detalhes das imagens criadas por IA é tamanha que consegue enganar sistemas de verificação menos robustos. No caso registrado, a vítima notou que sua senha havia sido alterada e conseguiu recuperar o acesso em 15 minutos. "Coloquei segurança máxima, entrei em contato com meu advogado e fui orientada a fazer o Boletim de Ocorrência", afirmou.
Segundo a defesa da vítima, o financiamento só não foi efetivado porque a comunicação com a concessionária e a polícia foi imediata, interrompendo o processo de entrega do automóvel.
Explosão de casos e o desafio da polícia
O crescimento das fraudes eletrônicas é descrito por investigadores como "exponencial". Frederico, investigador da Polícia Civil, afirma que os estelionatos digitais se tornaram uma febre no mundo do crime. "A cada três boletins de ocorrência registrados, um é de fraude eletrônica", revela o agente.
O setor de segurança pública enfrenta dificuldades para acompanhar a velocidade dos criminosos. Enquanto os golpistas operam sem restrições técnicas ou legais, a Polícia Civil depende de processos burocráticos, como a quebra de sigilo de dados, que exige autorização judicial. "O aparelhamento do Estado é mais devagar que o dos criminosos. O que mais engessa a investigação são as quebras de sigilo; o bandido não precisa de autorização para conseguir nossos dados", pontua Frederico.
Novas estratégias de autenticação
Para combater o avanço das "deepfakes" e montagens de IA, os métodos de verificação de identidade também estão evoluindo. Atualmente, apenas uma foto estática já não é considerada suficiente para garantir a autenticidade de um acesso.
Duas estratégias têm sido amplamente adotadas por instituições financeiras e órgãos de segurança:
- Mapeamento dinâmico: O sistema exige que o usuário grave várias partes do rosto, movimentando a cabeça para coletar informações de profundidade e ângulo.
- Ação de sorriso: Solicitar que a pessoa sorria para a câmera. O sorriso modifica drasticamente a estrutura da boca, nariz e bochechas, dificultando que uma imagem estática criada por IA consiga replicar o movimento de forma natural.
Como se proteger de golpes eletrônicos
Especialistas em segurança digital reforçam que a prevenção é a melhor ferramenta contra o estelionato. A recomendação fundamental é ativar a verificação em duas etapas (MFA) em todos os sites que armazenam documentos e dados sensíveis, especialmente o portal Gov.br.
Além disso, advogados orientam a adoção de uma postura proativa. Ao receber qualquer proposta de financiamento ou alerta de compra via telefone ou WhatsApp, o cidadão deve desligar e entrar em contato diretamente com os canais oficiais do banco, fintech ou concessionária. Não se deve fornecer dados ou confirmar operações em links enviados por terceiros sem a devida verificação oficial.
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