Dados do mais recente Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam que o Rio de Janeiro e São Paulo concentraram, em 2024, mais da metade das mortes de policiais civis e militares registradas em todo o território nacional. Ao todo, 170 agentes foram mortos no país ao longo daquele ano, evidenciando os riscos enfrentados pela categoria, tanto em operações quanto em atividades cotidianas.
A vulnerabilidade dos profissionais de segurança pública ultrapassa o horário de trabalho. Segundo o levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a maioria das mortes de policiais brasileiros — cerca de 72,9% — ocorreu enquanto os agentes estavam fora de serviço.
O conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Alan Fernandes, explica que, ao contrário do que ocorre em interações criminosas comuns com cidadãos, o policial corre riscos adicionais. Quando criminosos identificam que a vítima é um agente, a abordagem muitas vezes evolui rapidamente para uma execução caso o policial não consiga se antecipar à conduta criminosa.
Especialistas ressaltam que o crescimento das facções criminosas, que utilizam armamento de alto poder de fogo, como fuzis, aumentou a exposição dos profissionais. Alan Fernandes defende que a proteção desses agentes deve ser uma prioridade.
Os governos que colocam as suas polícias nesse confronto têm que, automaticamente, prover maior blindagem a esses policiais. Se você vai fazer uma operação que vai enfrentar essas organizações, você tem que ver esse policial com maior blindagem, maior do que aquela encontrada em patrulhamentos cotidianos, afirma.
Histórias interrompidas pelas estatísticas
Por trás dos números, o impacto das mortes reflete diretamente na rotina de famílias. Um caso emblemático é o do soldado de 32 anos, que possuía mais de 50 mil seguidores nas redes sociais. O agente, que utilizava a internet para compartilhar a rotina policial e promover projetos sociais na comunidade onde cresceu, foi morto a tiros na porta de sua própria casa em fevereiro do ano passado. O inquérito foi arquivado após o suspeito do crime morrer em um confronto com a polícia dias depois.
No Rio de Janeiro, a violência em áreas dominadas pelo crime organizado também resulta em baixas nas tropas de elite. Em outubro do ano passado, durante uma megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, o sargento Heber Carvalho da Fonseca, do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), foi baleado e morreu em serviço. Especialista em tiros de precisão, o sargento de 39 anos deixou esposa e filhos.
Jéssica Araújo, viúva do sargento, relata a angústia vivida durante a operação. "Ele me mandou uma foto e colocou 'estou bem'. Ele pediu para que eu continuasse orando. Eu segui mandando mensagem, quando vi que ele não respondia eu comecei a ligar e aí ele já não respondeu mais. Só pensava: como eu vou dar essa notícia em casa, o que eu vou falar para as crianças?", relembra.
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