O Brasil registrou cerca de 180 mil denúncias de violência contra pessoas idosas só no ano passado, um aumento de mais de 25% em relação a 2023. A maior parte dos casos acontece dentro de casa, e os filhos aparecem como os principais agressores. Além das agressões físicas, negligência, violência psicológica e abuso financeiro estão entre as formas mais comuns de violência contra esse público.
Garantir a independência dos idosos é um dos principais desafios do envelhecimento, e ele se torna ainda mais importante justamente porque os casos de violência acontecem, na maioria das vezes, no ambiente doméstico. Envelhecer com autonomia vai muito além de conseguir realizar as tarefas do dia a dia: envolve qualidade de vida, convívio social e liberdade para fazer escolhas, o que ajuda a reduzir situações de vulnerabilidade.
Nesse contexto, iniciativas que estimulam a atividade física e o convívio ganham espaço na capital paulista e em outras cidades. Uma delas é o walking football, modalidade de futebol adaptada em que se joga caminhando, e não correndo. O ritmo do jogo é mais lento, mas isso não significa falta de intensidade. A proposta é incentivar a prática de atividade física entre pessoas com mais idade.
Para Daniel Magnanelli, CEO da ONG Walking Football Brasil, a modalidade busca transformar a relação dos participantes com o próprio envelhecimento. "Tem todo um trabalho sutil e leve de que o nosso corpo vai mudar, nossa mente vai mudar. A gente busca com os idosos quebrar um paradigma de que no momento em que você fez 60 anos, você já está num declínio", afirma.
O cuidado com esse público é urgente diante dos números. A violência contra idosos ainda é cercada de silêncio, muitas vezes porque as próprias vítimas normalizam as agressões. Segundo Marilia Viana Berzins, especialista em gerontologia, essa percepção equivocada impede que muitos denunciem.
"Muitos idosos pensam que é normal da idade, olha que absurdo, ser maltratado, ser desrespeitado, não ser reconhecido, e isso, inclusive, inibe ele a procurar ajuda", diz.
Casos recentes reforçam que boa parte da violência parte de pessoas próximas, como no episódio em que um filho foi preso suspeito de agredir a mãe de 94 anos. A tendência de alta também vinha sendo registrada em anos anteriores, quando as denúncias de violência contra idosos aumentaram no país, acompanhando a maior exposição de vítimas dentro do próprio lar.
Para especialistas, a mudança desse cenário depende de uma resposta estrutural. Marilia defende que o enfrentamento passa pela responsabilização do poder público.
"A gente precisa ter uma rede de proteção efetiva assumida principalmente pelo Estado brasileiro na proteção aos direitos das pessoas idosas", afirma.
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