Jornal da Noite

Especialistas veem trégua em Gaza como avanço, mas paz duradoura ainda é incerta

A complexidade do conflito, a longa história de embates e as agendas políticas internas criam um cenário de incerteza para o futuro

TIAGO PRUDENTE

10/10/2025 • 01:19 • Atualizado em 10/10/2025 • 01:19

A trégua acordada entre Israel e o Hamas, comemorada nas ruas de Gaza, é vista por especialistas em relações internacionais como um passo significativo, mas que ainda não garante uma paz duradoura na região. A complexidade do conflito, a longa história de embates e as agendas políticas internas criam um cenário de incerteza para o futuro.

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"Isso representa um avanço significativo", avalia Sidney Ferreira Leite, professor de Relações Internacionais. Ele destaca dois pontos cruciais da trégua: a devolução dos reféns e o fim de um "massacre assimétrico" contra a população civil de Gaza.

No entanto, Leite ressalta que o acordo não encerra a longa história de conflitos e indecisões na região. "Não põe fim a uma longa história de embates, conflitos, indecisões e interrogações", afirma.

O analista Vitélio Brustolin, professor de Relações Internacionais na UFF, aponta um obstáculo central: a exigência do desarmamento do Hamas. "No momento em que há a devolução dos reféns e a soltura dos prisioneiros, o Hamas vai se desarmar. O Hamas está relutante em fazer isso", explica.

Essa relutância pode ser usada pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, para prolongar o conflito. "O Netanyahu pode usar isso para alegar que a guerra não acabou. Que os reféns foram libertados por negociação, e que, na verdade, um dos objetivos dessa guerra era acabar com o Hamas e com a possibilidade do Hamas, da Faixa de Gaza, de grupos em Gaza atacarem Israel novamente no futuro", diz Brustolin.

A política interna de Israel

A situação política interna de Israel é um fator crucial. Netanyahu se sustenta no poder com o apoio de partidos de extrema direita que rejeitam a criação de um Estado palestino. "Se este apoio for retirado, o governo cai. E teremos antecipação das eleições", explica Sidney Ferreira Leite.

Nesse cenário, a opinião pública israelense pode pressionar por mudanças. "E aí, sem dúvida, há uma tendência de derrota do atual governo", completa o especialista.

A reconstrução da Faixa de Gaza é outro ponto de preocupação. Ainda não há uma definição clara de como o território será reconstruído, nem como será a atuação de outros grupos armados e de alas do próprio Hamas que não concordam com os termos do acordo.

A busca por uma paz duradoura

Para o professor de Relações Internacionais Igor Lucena, a paz na região passa pela aceitação de dois Estados: "Falar em paz, necessariamente, significa a constituição de dois Estados. A comunidade internacional, em especial Israel e os Estados Unidos, aceitarem o Estado palestino de verdade", afirma.

Ele acrescenta que os países árabes também precisam retomar as negociações dos Acordos de Abraão e reconhecer o Estado de Israel. "Sem esses dois pontos de reconhecimento de toda a região, é muito difícil a gente falar que vai ter uma paz duradoura dentro do Oriente Médio", conclui.

A trégua em Gaza é um alívio humanitário e um passo importante, mas a construção de uma paz sólida e duradoura ainda depende de muitos fatores políticos e da disposição dos envolvidos em encontrar uma solução definitiva para o conflito.