Os Correios voltaram a registrar prejuízo expressivo neste ano: R$ 3,1 bilhões apenas no primeiro trimestre. Para o comentarista Fernando Schüler, o resultado reacende uma questão fundamental: por que o país não levou adiante a privatização da estatal, cujas contas acabam sendo pagas pelos contribuintes brasileiros?
Os números dos Correios são alarmantes. Além do prejuízo de R$ 3,1 bilhões no primeiro trimestre, a empresa já havia fechado o ano passado com rombo de R$ 8,5 bilhões. Para se manter de pé, recorreu a um empréstimo de R$ 12 bilhões junto ao sistema bancário, com aval do Tesouro Nacional.
Como a União é a sócia majoritária e controladora da companhia, toda essa conta acaba recaindo sobre o bolso do contribuinte. Na avaliação de Schüler, é um ciclo insustentável que poderia ter sido evitado.
A privatização dos Correios foi aprovada em 2021 pela Câmara dos Deputados. O processo, no entanto, ficou parado no Senado Federal. Quando o governo mudou, a empresa saiu do Programa Nacional de Desestatização (PND). O resultado é que o prejuízo continuou se acumulando no erário público, e a responsabilidade permaneceu com o Estado.
"A pergunta fundamental a ser feita é: por que o Congresso Nacional e o governo brasileiro não levaram à frente o processo de privatização desta empresa?", questiona Schüler. Para ele, houve uma oportunidade clara que foi desperdiçada.
O argumento tradicionalmente apresentado por quem se opõe à venda é o de que os Correios constituem uma empresa estratégica. A justificativa é que apenas uma estatal teria a responsabilidade de fazer a entrega de cartas e encomendas nas regiões mais remotas do país.
Schüler rebate essa lógica com uma pergunta simples: se o setor privado consegue, a partir do marco do saneamento básico, implantar dutos de água e esgoto nos pontos mais distantes do Brasil, por que não seria capaz de entregar cartas e encomendas?
A alegação da "empresa estratégica" não é nova. Schüler aponta que esse mesmo argumento acompanhou praticamente todas as grandes privatizações brasileiras e, historicamente, provou-se equivocado. Foi assim com a Vale do Rio Doce, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a Embraer, com o sistema de telefonia e, mais recentemente, com o sistema Telebrás. Em todos esses casos, a iniciativa privada comprovou-se capaz de manter a operação e os serviços.
"Todo o processo de privatizações no Brasil, que em geral foi um grande sucesso historicamente, sempre teve na posição contrária esta alegação de que as empresas eram estratégicas e, portanto, não poderiam ser privatizadas", resume Schüler.
Para o comentarista, o Brasil precisa mudar de direção sob pena de a empresa falimentar de uma vez por todas, com os custos continuando a recair sistematicamente no bolso do contribuinte. A questão, para ele, não é se os Correios devem ser privatizados, mas por que ainda não foram.
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