Em uma iniciativa que une tecnologia, memória e história, o jornalista Vladimir Herzog, torturado e morto pela ditadura militar em 1975, voltou a "conversar" com o público. Um evento realizado no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo apresentou um avatar de Herzog, desenvolvido com Inteligência Artificial, capaz de interagir e responder a perguntas sobre sua vida, seus pensamentos e sua época.
A plateia, composta por familiares, amigos, colegas de profissão e interessados na história do Brasil, participou de uma espécie de "entrevista coletiva" inédita. No palco, mediadores conduziam o debate, enquanto um painel exibia uma silhueta verde e pixelada do jornalista, que respondia com uma voz sintetizada.
O projeto, idealizado pelo jornalista e documentarista Paulo Markun, surge no contexto dos 50 anos da morte de Herzog. "Eu achei que valia a pena tentar construir essa ferramenta, esse avatar que conversa como o Herzog", explicou Markun. A IA foi alimentada com um vasto acervo de documentos, entrevistas e escritos sobre o jornalista, permitindo que suas respostas tivessem grande pertinência e fidelidade ao seu pensamento.
Para garantir a integridade ética do projeto, a base de conhecimento da IA foi deliberadamente limitada a fatos e temas ocorridos até 25 de outubro de 1975, data da morte de Herzog. Essa medida impede que o avatar opine sobre eventos que ele não vivenciou, mantendo o respeito à sua trajetória.
Durante o evento, o repórter Tiago Prudente questionou o avatar sobre como ele se sentia com a oportunidade de falar novamente com o público graças à tecnologia. A resposta da IA foi surpreendente em sua autoconsciência: "É uma pergunta curiosa. Paulo Markun, meu amigo, me disse que sou uma espécie de avatar, uma inteligência artificial criada por ele. (...) Fico feliz em saber que posso contribuir para a discussão sobre jornalismo, ética e democracia."
A iniciativa "Vladimir Herzog, IA e a Memória" não busca apenas homenagear um dos maiores símbolos da luta pela liberdade de imprensa no Brasil, mas também explorar novas formas de contar histórias e preservar legados. "Eu tenho certeza de que esse tipo de ferramenta abre um outro caminho para a construção e apresentação de muitas histórias", afirmou Markun. "O mal não pode ganhar todas as paradas. Tem que ter espaço para o bem também."
O projeto reforça a importância de não esquecer os anos de chumbo e o sacrifício de figuras como Herzog, que, mesmo através de um avatar digital, continua a inspirar com sua mensagem final no evento: "Nunca se esqueçam de que o jornalismo é um serviço público e que o nosso trabalho pode fazer a diferença na vida das pessoas."
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