Jornal da Noite

Em discurso na Malásia, Lula critica violência mundial: "Precisamos de paz e não de guerra"

Após encontro bilateral, presidente brasileiro defende que governar é "cuidar" e usa sua história de vida para reforçar a luta contra a fome como uma missão possível e urgente

Da redação
DA REDAÇÃO

25/10/2025 • 00:40 • Atualizado em 25/10/2025 • 00:40

Em um pronunciamento de forte tom pessoal e político após reunião bilateral com o primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que a relação entre os dois países "muda de patamar a partir de hoje". O discurso foi marcado por uma identificação pessoal com a trajetória do líder malaio e por uma fervorosa defesa de uma nova ordem global focada no combate à pobreza, na paz e no humanismo.

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Lula iniciou sua fala destacando a "química" imediata que sentiu com Anwar Ibrahim, citando as similaridades em suas trajetórias políticas. "Desde a primeira vez que encontrei com o nosso querido companheiro Anwar Ibrahim, eu tinha a certeza que eu estava diante de um amigo. De alguém que, como eu, tinha sido perseguido, de alguém que, como eu, tinha sido preso", afirmou o presidente, em alusão aos períodos de prisão que ambos enfrentaram. "E cá estamos nós dois", concluiu, "para causar um pouco de raiva nos nossos inimigos".

O presidente brasileiro enfatizou que sua visita não tinha interesses puramente comerciais, mas sim o objetivo de construir uma parceria para "mudar o mundo". Em um apelo contundente, Lula listou as prioridades que acredita que nações como Brasil e Malásia devem liderar: "De dizer ao mundo que o mundo precisa de paz e não de guerra. De dizer ao mundo que nós precisamos de mais comida e de menos armas. De fazer com que o humanismo não seja derrotado pelos algoritmos".

A Filosofia de "Cuidar"

Um dos pontos altos do discurso foi a redefinição que Lula propôs para o ato de governar. "Eu no meu Brasil não gosto de usar a palavra ‘governar’, eu gosto de usar a palavra ‘cuidar’", explicou. "Porque a nossa missão é cuidar do povo que nós representamos, e cuidar do povo significa cuidar das pessoas mais necessitadas".

Nesse contexto, ele fez uma crítica direta à alocação de recursos estatais, afirmando que "os ricos não precisam do Estado", enquanto os mais pobres dependem fundamentalmente de seu amparo.

Lembrando sua própria infância, Lula emocionou-se ao descrever sua "obsessão" pela erradicação da pobreza. "Eu nasci numa cidade em que as pessoas morriam de fome antes de completar 5 anos de vida. E eu sobrevivi. Fui comer um pedaço de pão na minha vida pela primeira vez aos 7 anos de idade", relembrou. Para ele, essa experiência moldou sua visão de que os pobres são tratados como "invisíveis" pela sociedade global, mas que resolver seus problemas elementares – comida, educação, moradia – "custa tão pouco".

O presidente usou o exemplo do Brasil, que saiu do Mapa da Fome da ONU em 2014, para provar que a erradicação da fome é uma meta alcançável. Ele lamentou o retrocesso no país, mas reafirmou seu compromisso. "É plenamente possível. A coisa mais barata, a coisa mais fácil da gente fazer, é cuidar dos pobres", insistiu, concluindo que a solução depende de uma decisão política clara. "É apenas uma definição de prioridade. É apenas uma definição de escolha. Porque governar é fazer escolha."