Jornal da Noite

Fernando Schüler fala sobre reedição do programa 'Desenrola'

Para o cientista político, medidas anunciadas no período pré-eleitoral, como o "Desenrola 2", podem estimular o endividamento e gerar um "risco moral" na economia brasileira

Por Redação
REDAÇÃO

06/04/2026 • 23:48 • Atualizado em 06/04/2026 • 23:48

Fernando Schüler
Dinheiro

Dinheiro

José Cruz/Agência Brasil/Arquivo

O cientista político Fernando Schüler comentou, em sua análise semanal, as recentes medidas econômicas anunciadas pelo governo federal, classificando-as como parte de uma "caixa de ferramentas populista" comum em períodos que antecedem eleições. O foco central de sua crítica foi a reedição do programa de renegociação de dívidas, apelidado de "Desenrola 2".

Compartilhar

Schüler explica que, desde o início do atual mandato, o governo diagnosticou um patamar perigoso de endividamento das famílias brasileiras. Em resposta, foram criados subsídios e facilitadores para a renegociação, utilizando recursos do Fundo Garantidor de Operações (FGO) e incentivos fiscais ao sistema financeiro.

No entanto, o analista aponta uma contradição: após dois anos de implementação dessas políticas, o endividamento das famílias, em vez de diminuir, aumentou.

O Conceito de Risco Moral

Citando o economista Samuel Pessôa, Schüler introduz o conceito de "risco moral" (moral hazard) para explicar o fenômeno. Segundo ele, quando o governo sinaliza que as dívidas serão recorrentemente renegociadas ou subsidiadas com dinheiro público, cria-se uma expectativa no consumidor de que não é necessário arcar integralmente com as consequências de suas escolhas financeiras.

"Muita gente, sabendo ou imaginando que as dívidas serão negociadas e que haverá subsídio, acaba sendo encorajada à tomada de mais dívidas", afirma Schüler. Ele destaca o perigo de linhas de crédito extremamente onerosas, como o rotativo do cartão de crédito, cujos juros podem ultrapassar os 400% ao ano, criando uma "bola de neve" impulsionada por dinheiro público.

Educação Financeira e Custo para o Contribuinte

Para o cientista político, o impacto dessas medidas é "extremamente negativo para o país" por três razões principais:

  1. Má educação financeira: Desestimula o planejamento e a responsabilidade fiscal do cidadão.
  2. Custo ao erário: As renúncias fiscais e subsídios são pagos pelo contribuinte.
  3. Cultura de irresponsabilidade: Disseminação de uma mentalidade de que o Estado sempre intervirá para sanar dívidas privadas.

Schüler ressalta que essa prática não é exclusividade da atual gestão. Ele compara a situação com o governo passado, que também utilizou medidas semelhantes, como o perdão de até 92% das dívidas de estudantes inadimplentes com o Fies, também em um contexto de proximidade eleitoral.

"Muda a ideologia do governante, mas a estratégia de manipular a economia no ritmo do calendário eleitoral permanece a mesma", conclui o analista, alertando para os danos de longo prazo que o foco no curto prazo político pode causar à estabilidade econômica do Brasil.

Fique bem informado!

Receba gratuitamente as notícias mais importantes do dia direto no seu e-mail

Escolha quais newsletters quer receber