
Dinheiro
José Cruz/Agência Brasil/Arquivo
O cientista político Fernando Schüler comentou, em sua análise semanal, as recentes medidas econômicas anunciadas pelo governo federal, classificando-as como parte de uma "caixa de ferramentas populista" comum em períodos que antecedem eleições. O foco central de sua crítica foi a reedição do programa de renegociação de dívidas, apelidado de "Desenrola 2".
Schüler explica que, desde o início do atual mandato, o governo diagnosticou um patamar perigoso de endividamento das famílias brasileiras. Em resposta, foram criados subsídios e facilitadores para a renegociação, utilizando recursos do Fundo Garantidor de Operações (FGO) e incentivos fiscais ao sistema financeiro.
No entanto, o analista aponta uma contradição: após dois anos de implementação dessas políticas, o endividamento das famílias, em vez de diminuir, aumentou.
O Conceito de Risco Moral
Citando o economista Samuel Pessôa, Schüler introduz o conceito de "risco moral" (moral hazard) para explicar o fenômeno. Segundo ele, quando o governo sinaliza que as dívidas serão recorrentemente renegociadas ou subsidiadas com dinheiro público, cria-se uma expectativa no consumidor de que não é necessário arcar integralmente com as consequências de suas escolhas financeiras.
"Muita gente, sabendo ou imaginando que as dívidas serão negociadas e que haverá subsídio, acaba sendo encorajada à tomada de mais dívidas", afirma Schüler. Ele destaca o perigo de linhas de crédito extremamente onerosas, como o rotativo do cartão de crédito, cujos juros podem ultrapassar os 400% ao ano, criando uma "bola de neve" impulsionada por dinheiro público.
Educação Financeira e Custo para o Contribuinte
Para o cientista político, o impacto dessas medidas é "extremamente negativo para o país" por três razões principais:
- Má educação financeira: Desestimula o planejamento e a responsabilidade fiscal do cidadão.
- Custo ao erário: As renúncias fiscais e subsídios são pagos pelo contribuinte.
- Cultura de irresponsabilidade: Disseminação de uma mentalidade de que o Estado sempre intervirá para sanar dívidas privadas.
Schüler ressalta que essa prática não é exclusividade da atual gestão. Ele compara a situação com o governo passado, que também utilizou medidas semelhantes, como o perdão de até 92% das dívidas de estudantes inadimplentes com o Fies, também em um contexto de proximidade eleitoral.
"Muda a ideologia do governante, mas a estratégia de manipular a economia no ritmo do calendário eleitoral permanece a mesma", conclui o analista, alertando para os danos de longo prazo que o foco no curto prazo político pode causar à estabilidade econômica do Brasil.
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