A campanha eleitoral vai provocar várias baixas no ministério de Lula até abril. Mas tem uma baixa que não tem nada a ver com a eleição: o Ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, que já avisou o presidente que está indo embora. Ele fala em fim de ciclo, que já deu a contribuição dele, mas a verdade verdadeira é que o ministro está indo embora depois de passar dois anos no cargo sem que a voz dele tenha sido ouvida pelo governo, sem que a presença dele tenha sido notada e valorizada.
Lewandowski é uma pessoa doce, das mais doces que você vai poder conhecer. Educado, cuidadoso com as palavras, bem-intencionado. Aí quando ele deixou o Supremo Tribunal Federal, parecia que ele tinha encerrado a carreira dele no poder público, mas ele acabou aceitando o desafio, que não era para ele. Assumiu o Ministério da Justiça de um governo que quer chegar na campanha de outubro, agora, contando que fez um monte de coisa bacana para conter a criminalidade, sendo que até agora não fez nada de concreto.
Bom, tem problema de perfil? Em parte tem. Uma coisa é ser Ministro da Justiça num tempo que já não existe mais, em que a pasta discutia as grandes questões do Estado. Os debates constitucionais passavam por ali, as nomeações para os tribunais superiores sem o "ok" era difícil, a interlocução com o Congresso não acontecia sem a ajuda do Ministro da Justiça. Já foi assim um dia.
Aí de um tempo para cá, essas tarefas mais nobres, tarefas do jogo do poder de Brasília, passaram para o Gabinete Civil. E o Ministério da Justiça, que já foi um maestro, não é mais maestro coisa nenhuma e tudo o que os presidentes passaram a cobrar é uma atuação concentrada no combate à criminalidade, que o ministério não tem as condições institucionais de fazer, menos ainda alguém como Lewandowski. Ele vai poder argumentar que antecessores dele tentaram e também não conseguiram, e provavelmente vai ter razão se disser isso.
E esse talvez seja o ponto mais preocupante. O Ministério da Justiça é a pasta onde está a Polícia Federal, que faz um trabalho excelente, desmontou vários esquemas pesados, fartamente noticiados. Acontece que o combate ao crime organizado só funciona com o envolvimento das polícias estaduais comandadas pelos governadores. E aí a coisa complica, porque cada governador cuida do seu território num sistema desorganizado, enfrentando o crime organizado. Um crime que já teve pequenas quadrilhas, pequenas facções, elas foram crescendo, grandes quadrilhas, grandes facções, operações nacionais e internacionais.
O aparelho do Estado não está preparado para isso e Lewandowski, infelizmente, não contribuiu para virar esse jogo. A história registra vários casos de ministros que saíram deixando um rastro pela lambança que eles aprontaram na pasta. Tem os que saíram deixando um legado, e tem os que saem como Lewandowski: em branco.
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