
Silviano Santiago
Fernando Mattar/Band
Uma “aula magna” que desafiou certezas sobre língua, território e cidadania. Na primeira mesa da Fliparaíba - que acontece no Centro Cultural São Francisco, em João Pessoa - o crítico literário Silviano Santiago provocou: será possível imaginar um território lusófono forjado não por fronteiras geográficas, mas pela força criativa da literatura?
Aos 89 anos, o ensaísta mineiro — um dos mais influentes críticos literários do Brasil, autor de obras fundamentais como “Uma Literatura nos Trópicos” e “O Cosmopolitismo do Pobre” — conduziu o debate inaugural “A Língua como Território de Cidadania” questionando e reconfigurando os significados dessas três palavras sob a ótica do mundo contemporâneo e multilíngue.
Santiago defendeu que a língua, especialmente no contexto brasileiro, precisa ser vista não apenas como herança colonial, mas como território em constante reinvenção. O autor pontuou a limitação histórica do termo “língua portuguesa” no Brasil, que só se tornou oficialmente deficitária com a publicação do Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa*, de Aurélio Buarque de Holanda, em 1975 — marco que incorporou verbetes de línguas indígenas e africanas ao léxico nacional.
“O português no Brasil se transformou em uma língua europeia falada por diversas etnias, acolhendo organicamente o bi- e o trilinguismo”, argumentou Santiago, estabelecendo uma diferença fundamental em relação à variante de Portugal: enquanto a língua europeia tem seu forte na escrita, a brasileira se destaca pela oralidade.
Para ilustrar essa transformação, ele recorreu aos versos célebres de Manuel Bandeira em “Evocação do Recife”: A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros / Vinha da boca do povo na língua errada do povo / Língua certa do povo. Essa “língua errada”, explicou, é na verdade a língua que recobre e transforma a sintaxe lusíada imposta pela colonização.
Essa transformação, segundo Santiago, se deu através das lutas libertárias dos povos indígenas e africanos, conferindo à língua comum uma força de união e solidariedade tricontinental — mesmo que ainda inexistente em dicionário e gramática unificadores.
O crítico traçou uma contundente trajetória histórica do conceito de cidadania no Brasil. Lembrou que, desde a Carta de Caminha, os habitantes eram súditos e não cidadãos — um salto conceitual que se consolida apenas com a Revolução Francesa e seus valores de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Mas Santiago identificou um paradoxo histórico: foram justamente esses valores universais do Iluminismo europeu que fomentaram as lutas pela Independência nas Américas. “A emancipação das colônias foi paradoxalmente alimentada por obras filosóficas cujo fim era afirmar a Europa como potência hegemônica e universal”, observou.
A crítica mais contundente recaiu sobre a Constituição Política do Império do Brasil de 1824, que misturou cultura jurídica e identidade nacional para negar direitos de cidadania às populações indígena e negra. “Mais do que uma lacuna, essa injustiça foi responsável pela força libertária que impulsionou o grande salto” até a Constituição Cidadã de 1988, afirmou.
A Constituição de 1988, segundo Santiago, concretizou e ampliou os antigos conceitos abstratos e universais de cidadania, garantindo ao povo brasileiro liberdade de expressão, voto universal e acesso à justiça, educação, saúde e dignidade.
Na parte final de sua fala, Santiago abordou a necessária desterritorialização dos Estados-nações — conceito desenvolvido por pensadores como Jacques Derrida, Michel Foucault e Gilles Deleuze.
O território, em seu novo sentido, seria “inexistente nos quadradinhos de um mapa-múndi, mas real na medida em que congrega cidadãos de nações europeias, americanas e africanas dedicados à arte literária”, propôs o ensaísta.
Daí veio o questionamento central de sua fala: “Será que podemos e devemos debater a possibilidade de um território lusófono constituído por uma língua lusófona?”
Essa língua franca — termo clássico para designar idiomas de comunicação entre diferentes povos —, ainda sem dicionário e gramática unificados, não seria artificial. Ao contrário: seria forjada cotidianamente na produção literária de autores dos três continentes. “Não é artificial porque quem a fala e quem a escreve no árduo, difícil e prazeroso cotidiano é cidadã ou cidadão europeu, americano ou africano — vale dizer, uma cidadã ou cidadão do mundo”, argumentou Santiago.
Para encerrar, Santiago citou a utopia do poema “A Cidade Prevista”, de Carlos Drummond de Andrade, que imagina “uma pátria sem fronteiras, sem leis e regulamentos, uma terra sem bandeiras”. A referência reforçou sua tese central: a de que a arte literária pode forjar um novo e inclusivo território de cidadania em um planeta em polvorosa.
A provocação de Santiago ecoou na mesa de abertura, que reuniu também o escritor e curador português José Manuel Diogo, a professora, escritora e gestora cultural paraibana Aline Cardoso, e a vice-reitora da UFPB, Bernardina Freire, doutora em Letras.
Juntos, exploraram a língua como “geografia da alma” e “solo simbólico” onde nações e pertencimentos são constantemente formados e reformulados pelos afetos inscritos na palavra. A utopia de uma “pátria sem fronteiras” parecia - ao menos nesta manhã de sexta-feira no Centro Cultural São Francisco, em João Pessoa - um pouco menos distante.
A FliParaíba 2025 segue até amanhã com programação que celebra a diversidade literária lusófona.
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