Band Jornalismo

Lula chama 'tarifaço' de 'chantagem inaceitável' e diz que pode recorrer à Lei da Reciprocidade

Presidente fez pronunciamento sobre as sobretaxas de 50% impostas por Donald Trump e criticou atuação de políticos que dão "apoio interno" ao americano

Da redação
DA REDAÇÃO

17/07/2025 • 20:55 • Atualizado em 17/07/2025 • 20:55

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez na noite desta quinta-feira (17) um pronunciamento sobre a taxação unilateral de 50% sobre todos os produtos brasileiros imposta pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O mandatário brasileiro classificou a ação como uma “chantagem inaceitável” e disse que o governo tentou negociar com os norte-americanos, mas o que o País recebeu de volta foi “ameaças às instituições brasileiras”.“Fizemos mais de 10 reuniões com o governo dos Estados Unidos e encaminhamos em 16 de maio uma proposta de negociação. Esperávamos uma resposta e o que veio foi uma chantagem inaceitável em forma de ameaças às instituições brasileiras e com informações falsas sobre o comércio entre o Brasil e os Estados Unidos”, disse o petista.O brasileiro desmentiu a tese de que os americanos são prejudicados por práticas comerciais desleais do Brasil, como afirmou Trump na carta em que anunciou as sobretaxas. O presidente lembrou que os norte-americanos acumulam “há mais de 15 anos robusto superávit comercial de 410 bilhões de dólares” e afirmou que não aceitaria ataques ao PIX, alvo de investigação do governo Trump. “Temos um dos sistemas de pagamento mais avançados do mundo e vamos proteger”, disse.

Compartilhar

O presidente também criticou a tentativa norte-americana de interferência no Judiciário brasileiro, o que classificou como “grave atentado à soberania nacional” e julgou o que chamou de apoio interno à decisão do governo norte-americano – uma crítica indireta ao deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). “Minha indignação é ainda maior por saber que esse ataque ao Brasil tem apoio de alguns políticos brasileiros. São verdadeiros traidores da pátria. Aposto no quanto pior, melhor. Não se importam com a economia do país e os danos causados ao nosso povo”, afirmou.O presidente brasileiro reafirmou o compromisso com o diálogo, mas alertou que o Brasil usará “todos os instrumentos legais” para proteger sua economia, inclusive acionando a Organização Mundial do Comércio (OMC) e recorrendo à Lei da Reciprocidade aprovada em abril pelo Congresso Nacional e regulamentada na última segunda-feira pelo mandatário.

“Não há vencedores em guerras tarifárias. Somos um país de paz, sem inimigos. Mas que ninguém se esqueça: o Brasil tem um único dono, o povo brasileiro”, concluiu.

Leia o pronunciamento completo do presidente

Minhas amigas e meus amigos,

Fomos surpreendidos, na última semana, por uma carta do presidente norte-americano anunciando a taxação dos produtos brasileiros em 50% a partir de 1º de agosto. O Brasil sempre esteve aberto ao diálogo. Fizemos mais de dez reuniões com o governo dos Estados Unidos e encaminhamos, em 16 de maio, uma proposta de negociação. Esperávamos uma resposta, e o que veio foi uma chantagem inaceitável, em forma de ameaças às instituições brasileiras e com informações falsas sobre o comércio entre o Brasil e os Estados Unidos.

Contamos com um Poder Judiciário independente. No Brasil, respeitamos o devido processo legal, o princípio da presunção da inocência, do contraditório e da ampla defesa. Tentar interferir na Justiça brasileira é um grave atentado à soberania nacional.

Somos uma pátria soberana, capaz de gerar empregos, combater as desigualdades, garantir saúde e educação, promover o desenvolvimento sustentável e criar as oportunidades que as pessoas precisam para crescer na vida.

Minha indignação é ainda maior por saber que esse ataque ao Brasil tem apoio de alguns políticos brasileiros. São verdadeiros traidores da pátria. Apostam no "quanto pior, melhor". Não se importam com a economia do país nem com os danos causados ao nosso povo.

Minhas amigas e meus amigos,

A defesa da nossa soberania também se aplica à atuação das plataformas digitais estrangeiras no Brasil. Para operar em nosso país, todas as empresas, nacionais e estrangeiras, são obrigadas a cumprir as regras. No Brasil, ninguém, ninguém está acima da lei.

É preciso proteger as famílias brasileiras de indivíduos e organizações que se utilizam das redes digitais para promover golpes e fraudes, cometer crime de racismo, incentivar a violência contra as mulheres e atacar a democracia, além de alimentar o ódio, a violência e o bullying entre crianças e adolescentes – em alguns casos levando à morte – e desacreditar as vacinas, trazendo de volta doenças há muito tempo erradicadas.

Minhas amigas e meus amigos,

Estamos nos reunindo com representantes dos setores produtivos, da sociedade civil e dos sindicatos. Esta é uma grande ação conjunta que envolve a indústria, o comércio, o setor de serviços, o setor agrícola e os trabalhadores. Estamos juntos na defesa do Brasil e faremos isso de cabeça erguida, seguindo o exemplo de cada brasileiro e cada brasileira que acorda cedo e vai à luta para trabalhar, cuidar da família e ajudar o Brasil a crescer. Seguiremos apostando nas boas relações diplomáticas e comerciais — não apenas com os Estados Unidos, mas com todos os países do mundo.

Minhas amigas e meus amigos,

A primeira vítima de um mundo sem regras é a verdade. São falsas as alegações sobre práticas comerciais desleais brasileiras. Os Estados Unidos acumulam, há mais de 15 anos, um robusto superávit comercial de 410 bilhões de dólares.

O Brasil, hoje, é referência mundial na defesa do meio ambiente. Em dois anos, já reduzimos pela metade o desmatamento da Amazônia e estamos trabalhando para zerá-lo até 2030. Além disso, o PIX é do Brasil. Não aceitaremos ataques ao PIX, que é um patrimônio do nosso povo. Temos um dos sistemas de pagamento mais avançados do mundo – e vamos protegê-lo.

Minhas amigas e meus amigos,

Quando tomamos posse na Presidência da República, em 2023, encontramos o Brasil isolado do mundo. Nosso governo, em apenas dois anos e meio, abriu 379 novos mercados para os produtos brasileiros no exterior. Estamos construindo parcerias comerciais com a União Europeia, a Ásia, a ASEAN e nossos vizinhos da América Latina e do Caribe.

Se necessário, usaremos todos os instrumentos legais para defender a nossa economia – desde recursos à Organização Mundial do Comércio até a Lei da Reciprocidade aprovada pelo Congresso Nacional.

Minhas amigas e meus amigos,

Não há vencedores em guerras tarifárias. Somos um país de paz, sem inimigos. Acreditamos no multilateralismo e na cooperação entre as nações. Mas que ninguém se esqueça: o Brasil tem um único dono, o povo brasileiro.

Muito obrigado.