
Manaus prepara primeiro aterro sanitário da história do Amazonas
Divulgação
Manaus está prestes a resolver um dos maiores paradoxos da Amazônia: uma capital que cresceu em meio à floresta, mas durante quase quatro décadas viveu sem um destino ambientalmente correto para o seu próprio lixo. A atual gestão municipal iniciou a contagem regressiva para o início do funcionamento do primeiro aterro sanitário da história da cidade — um marco para o Amazonas e para toda a região Norte, que concentra os piores índices de destinação adequada de resíduos sólidos no país.
Com investimento superior a R$ 20 milhões e previsão de operação a partir de fevereiro de 2026, o novo complexo ocupará 67 hectares na zona norte da capital, com quatro células operacionais, impermeabilização de quatro camadas de proteção do lençol freático e um moderno sistema de tratamento de efluentes. A estrutura foi concebida para ter vida útil de 20 anos e cumpre o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado entre a Prefeitura e o Ministério Público do Amazonas, que exige a substituição do antigo aterro até o fim de 2028.
Amazônia ainda enterra o futuro no lixo
O contraste de Manaus com o restante da região revela o tamanho do desafio. Segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos 2023, da Abrema (Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente), 41,2% dos resíduos urbanos do Brasil ainda têm destinação inadequada — índice que salta para quase 70% nas capitais da Região Norte, onde o descarte em lixões e aterros controlados ainda é a regra. Em Boa Vista (RR) e Macapá (AP), por exemplo, não há sistemas com controle de chorume e gases; em Rio Branco (AC), o aterro funciona há mais de 20 anos sem licença ambiental atualizada. Belém (PA), que sediou a COP30, também enfrenta limitações de capacidade e infraestrutura em seu principal centro de destinação de resíduos.
Manaus ainda envia cerca de 3 mil toneladas de lixo por dia ao antigo depósito da AM-010, ativo desde 1986, e que atingiu o limite de operação em 2024. O espaço foi mantido temporariamente por decisão do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) e passará por desativação gradual até 2028, em paralelo à entrada em operação do novo aterro.
Energia limpa e economia circular
Além de eliminar um passivo ambiental histórico, o novo complexo também aposta em inovação. O projeto prevê a geração de biometano a partir da decomposição dos resíduos e o aproveitamento energético do biogás, o que pode reduzir as emissões em até 400 milhões de toneladas de CO₂ equivalente ao ano, segundo estimativas técnicas do consórcio responsável. No antigo aterro, a Prefeitura também planeja instalar um sistema de energia solar com capacidade de 1 megawatt, transformando o local em um polo de transição energética.
“O lixo deixa de ser apenas um problema e passa a ser parte da solução — um vetor de energia limpa e geração de empregos”, resume David Almeida, prefeito de Manaus.
Uma virada de página para o Norte
A expectativa é que além de gerar energia para milhares de famílias, a estrutura contribuirá para o fortalecimento do parque industrial, com a oferta de gás sustentável a preços competitivos e a criação de empregos qualificados em áreas de engenharia, meio ambiente e energia limpa.
O avanço ocorre num momento em que o Brasil tenta cumprir a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), sancionada há 14 anos e ainda longe de ser realidade plena. O país deveria ter eliminado todos os lixões até 2014 — meta que segue descumprida por mais de 1.800 cidades que seguem com destinação de lixo inadequada.
Ao inaugurar seu primeiro aterro sanitário, Manaus deixa de ser parte do problema e passa a representar uma nova referência para a região Norte — onde, paradoxalmente, se concentra a maior biodiversidade do planeta e o menor índice de infraestrutura ambiental do país.
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