O filme de guerra que terminou com a prisão de Nicolás Maduro foi um show. Porque parecia um filme de guerra. As tropas americanas resolveram em minutos o que ninguém imaginou que fosse acontecer em anos, que é a queda do ditador.
Vamos combinar, quem é que punha fé nas ameaças de Donald Trump? E tá aí: Maduro preso em Nova York, respondendo criminalmente. Hoje, aliás, foi a primeira audiência. Tem muita gente aí discutindo se podia, se não podia. Agora pergunta para qualquer venezuelano que deixou o país – e a gente tá falando de um êxodo de 20% da população – o que que achou da imagem de Maduro com óculos escuros por dentro e por fora, pra não ver onde é que ele tava, com fone pra não ouvir o que conversavam na volta dele? Pergunta talvez pra mais da metade da população que ficou na Venezuela passando fome. Pergunta para todos eles, qualquer um, se eles tão com pena, se eles acham que os americanos se excederam.
Maduro, ele colocou a Venezuela na lona. Venezuela que já teve uma renda per capita equivalente a 80% da renda per capita americana. Que era mais rica do que o Japão, que era tão rica quanto a Alemanha. Um país que, debaixo da ditadura, viu o PIB derreter, cair a um terço do que já foi um dia. País onde falta comida, remédio, luz, água, dinheiro, salário. Dizimado economicamente, politicamente, socialmente, institucionalmente, por obra de um ditador que agora tá enjaulado.
Bom, como filme de ação, a operação foi um sucesso, foi um show. Agora é hora de a gente ver o livro – o livro, não o filme – o livro da ocupação, pra entender como é que essa ocupação vai ajudar na reconstrução da Venezuela. E aí eu peço licença. Peço licença aos que estão apaixonados pela discussão sobre se essa intervenção é legítima ou não. Porque essa discussão não leva a gente pra lugar algum. Os chefes de estado que são contrários podem soltar notas, notas de protesto, a ONU também, só que nada muda o fato central. A invasão aconteceu, a prisão também. Maduro rodou.
E sempre foi assim. A ONU foi criada em 45, completou 80 anos no ano passado, e tá lá escrito que os países só podem agir militarmente quando têm autorização do Conselho de Segurança ou então em caso de autodefesa. Não tem nenhuma contagem oficial, mas nesses 80 anos foram várias invasões, várias intervenções que não se encaixam nessas exceções. Entrada americana na Guerra do Vietnã, invasão ao Afeganistão depois dos ataques às torres gêmeas em 2001, ou então ao Iraque em 2003, invasão russa à Ucrânia.
A política internacional é feita de discussões sobre direito, sobre política, claro, mas tem um outro aspecto concreto tão importante quanto, que envolve a análise das consequências do ataque. Daí por que eu falei no livro que tem que ser escrito, vai ser escrito a partir de agora sobre a Venezuela pós-Maduro. Quais vão ser as consequências práticas da invasão? O que que vai mudar nas estruturas do estado, onde até vaga de garçom dependia de indicação do regime? Vai ter faxina na estatal de petróleo? Vão desmontar os esquemas corruptos? Vão mexer no judiciário que tá totalmente contaminado? Vão chamar novas eleições? Vai ter constituinte? Sem modificação estrutural, a Venezuela sem Maduro não vai passar disso: um país largado ou morto, como disse o presidente Donald Trump.
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