
Kellen Oliveira Bretas Antunes, de 42 anos
Redes Sociais e Sandy Huffaker for The Washington Post via Getty Images
Resumo
Internação de mulher de 42 anos em Belo Horizonte ocorre após complicações graves pelo uso da caneta emagrecedora ilegal Lipoless, conhecida como “Mounjaro do Paraguai”, resultando no diagnóstico de síndrome de Guillain-Barré, doença neurológica rara que pode causar paralisia progressiva.
Comercialização da Lipoless, anunciada como versão da tirzepatida, é proibida no Brasil pela Anvisa, sem garantia de segurança, composição ou eficácia, enquanto especialistas como Alexandre Hohl alertam para o risco à saúde pública representado por produtos clandestinos.
Incidência da síndrome de Guillain-Barré costuma estar relacionada a infecções, não a medicamentos regulamentados, porém produtos irregulares podem conter impurezas ou contaminações que favorecem o desenvolvimento da doença, segundo infectologista Julio Croda, sendo necessário análise detalhada para confirmar associação com medicamentos clandestinos.
Uma mulher de 42 anos, moradora de Belo Horizonte (MG), segue internada desde dezembro após apresentar complicações graves associadas ao uso da caneta emagrecedora Lipoless, produto ilegal conhecido popularmente como “Mounjaro do Paraguai”. Segundo relatos da família nas redes sociais, a paciente foi diagnosticada com síndrome de Guillain-Barré, doença neurológica rara que pode provocar paralisia progressiva.
A Lipoless é anunciada como uma versão da tirzepatida e teria origem em uma indústria farmacêutica do Paraguai. No entanto, o medicamento não possui autorização para comercialização ou uso no Brasil, conforme normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o que impede qualquer garantia sobre sua composição, segurança e eficácia.
Em reportagem recente do Estadão, o endocrinologista Alexandre Hohl, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) e da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), alertou para os riscos desses produtos. “O grau de confiabilidade é baixo e constitui risco à saúde pública”, afirmou.
O que é a síndrome de Guillain-Barré
A síndrome de Guillain-Barré é um distúrbio autoimune raro, com incidência estimada entre um e quatro casos a cada 100 mil habitantes por ano. A doença ocorre quando o próprio sistema imunológico passa a atacar o sistema nervoso periférico, provocando inflamação nos nervos e comprometendo a transmissão dos impulsos nervosos.
De acordo com o Ministério da Saúde, o gatilho mais comum para o desenvolvimento da síndrome é a infecção pela bactéria Campylobacter, mas vírus como zika, dengue, chikungunya, sarampo e influenza A também podem desencadear o quadro.
Os sintomas variam de pessoa para pessoa e costumam surgir semanas após a infecção inicial. Entre os sinais mais frequentes estão formigamento, dormência e fraqueza muscular, geralmente começando pelas pernas e evoluindo de forma ascendente. Também podem ocorrer sonolência, confusão mental, perda da coordenação, visão dupla, tremores e redução do tônus muscular.
“Geralmente começa com formigamento e dormência e evolui para uma fraqueza muscular progressiva”, explica o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Em cerca de metade dos casos, há registro de dor neuropática, especialmente na região lombar. Nos quadros mais graves, a síndrome pode comprometer a respiração e o sistema gastrointestinal, causando falta de ar, dificuldade para engolir e fraqueza facial. Segundo o Ministério da Saúde, entre 5% e 15% dos casos podem evoluir para óbito.
A orientação médica é que, diante de qualquer suspeita, o paciente procure atendimento de urgência para reduzir o risco de complicações como infecções pulmonares e sepse. “Quando o sistema respiratório não é acometido, os casos tendem a ser mais leves e com menor risco de sequelas”, destaca Croda.
No Sistema Único de Saúde (SUS), o tratamento inclui o uso de imunoglobulina intravenosa ou plasmaférese, terapias que ajudam a modular a resposta imunológica. A fisioterapia também é fundamental para a reabilitação, acelerando a recuperação e reduzindo danos neurológicos a longo prazo.
Investigação sobre a relação com as canetas irregulares
Segundo Croda, a síndrome de Guillain-Barré é mais frequentemente associada a infecções, e não a medicamentos específicos. Por isso, não há evidências de ligação direta entre a doença e os análogos de GLP-1 regulamentados.
O cenário, no entanto, muda quando se trata de produtos irregulares. “Esses medicamentos não regulamentados podem conter impurezas ou contaminações relevantes. Nesse contexto, pode haver, sim, uma relação com a síndrome, especialmente se o produto estiver contaminado por bactérias ou vírus”, afirma o infectologista.
Para os especialistas, a confirmação dessa associação depende da análise detalhada da composição dos produtos clandestinos, reforçando o alerta sobre os riscos do uso de medicamentos sem registro e sem acompanhamento médico.
*Com informações do Estadão Conteúdo.
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