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O que os dados revelam sobre a cannabis como terapia

Mais do que números, os dados mostram que mulheres são maioria entre pacientes com dor, ansiedade e insônia em acompanhamento com cannabis medicinal

Da redação
DA REDAÇÃO

22/03/2026 • 18:43 • Atualizado em 22/03/2026 • 18:43

Cannabis

Cannabis

Reprodução/Pixabay

Durante décadas, a dor feminina foi frequentemente naturalizada, minimizada ou tratada como exagero. Queixas de ansiedade, insônia ou dores crônicas muitas vezes foram atribuídas à “sensibilidade”, ao estresse ou a fatores emocionais, sem a devida investigação clínica.

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Mas quando olhamos para os dados, a realidade se impõe. No maior estudo guarda-chuva com evidência de mundo real sobre cannabis medicinal da América Latina, produzido pela Cannect a partir de pacientes em acompanhamento crônico entre 2022 e 2025, observamos que 65,3% dos 1.073 pacientes monitorados eram mulheres.

A idade média dessas pacientes foi de 48,4 anos, concentrando-se majoritariamente na meia-idade. As principais queixas relatadas no ingresso ao serviço foram ansiedade (44,4%), dor (31,4%) e insônia (14,7%) entre mulheres - três condições que, somadas, representaram mais de 90% das queixas femininas registradas. Os números não são apenas estatística. Eles revelam um padrão.

Mulheres vivem mais e utilizam serviços de saúde com maior frequência ao longo da vida, além de apresentarem maior adesão a modelos de cuidado longitudinal. A literatura internacional demonstra também maior prevalência feminina de dor crônica, transtornos de ansiedade e distúrbios do sono, fenômeno associado a fatores biológicos, hormonais e psicossociais. Estudos apontam ainda que a sobrecarga ocupacional e doméstica — frequentemente descrita como “dupla jornada” — está relacionada a maior estresse crônico e pior qualidade do sono, impactando diretamente a saúde mental e física das mulheres.

Quando observamos o perfil etário, outro dado chama atenção: enquanto queixas como ansiedade concentraram-se em faixas etárias mais jovens (média de 40,7 anos), condições como dor crônica apresentaram média etária mais elevada (52,8 anos), refletindo o peso acumulado de doenças crônicas ao longo da vida.

A cannabis medicinal surge nesse contexto não como solução milagrosa, mas como ferramenta terapêutica adicional dentro de um cuidado coordenado e multidisciplinar. O sistema endocanabinoide, envolvido na modulação de dor, humor e sono, ajuda a explicar por que determinados perfis clínicos podem se beneficiar dessa abordagem, especialmente quando tratamentos convencionais apresentam eficácia limitada ou efeitos adversos relevantes.

É fundamental reforçar que os produtos à base de cannabis utilizados em contexto terapêutico são regulamentados pela Anvisa e exigem prescrição por profissionais habilitados. Como qualquer medicamento, possuem potenciais riscos, interações e contraindicações. Seu uso deve sempre estar inserido em acompanhamento clínico estruturado.

O que os dados mostram, acima de tudo, é que a dor feminina não é episódica nem marginal. Ela é frequente, persistente e muitas vezes invisível.

Neste Mês da Mulher, falar de saúde da mulher é também reconhecer que a sobrecarga física e emocional tem expressão clínica. E que dados bem analisados ajudam a transformar experiências individuais em evidência coletiva. Dar visibilidade à dor feminina é o primeiro passo para oferecer cuidado mais equitativo, individualizado e baseado em ciência.

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