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O segredo de Chernobyl: a falha no reator que apressou o fim da URSS

Cultura de segurança falha criou base para a explosão de 1986 e abalou o regime soviético; entenda

Da redação
DA REDAÇÃO

26/03/2026 • 16:11 • Atualizado em 26/03/2026 • 16:11

O segredo de Chernobyl: a falha no reator que apressou o fim da URSS

O segredo de Chernobyl: a falha no reator que apressou o fim da URSS

REUTERS/Valentyn Ogirenko/File Photo

Em 26 de abril de 1986, o desastre na usina de Chernobyl, na então República Socialista Soviética da Ucrânia, expôs uma falha de design "invisível" do reator RBMK-1000.

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Combinado a erros operacionais e à ausência de uma cultura de segurança em pleno clima de Guerra Fria, o acidente se tornou, na avaliação de Mikhail Gorbachev, oitavo e último líder da União Soviética, um dos fatores que mais apressaram o fim da União Soviética.

Coeficiente de vazio positivo: a falha técnica por trás da explosão

O RBMK-1000 carregava em sua concepção um problema técnico crucial: o chamado coeficiente de vazio positivo. Em termos simples, isso significa que, quando a água de resfriamento ferve e forma bolhas de vapor dentro do reator, a reatividade do núcleo aumenta em vez de diminuir.

Na operação normal, a água líquida, mais densa, ajuda a absorver nêutrons e, assim, atua como um freio natural da reação em cadeia. Quando essa água se transforma em vapor, surgem "vazios" no circuito.

Em um reator com coeficiente de vazio positivo, como o RBMK, os nêutrons que antes seriam absorvidos pela água passam a provocar ainda mais fissão no combustível nuclear, elevando rapidamente a potência.

No momento do acidente de Chernobyl, a combinação entre o desgaste do combustível, a configuração das barras de controle e o nível muito baixo de potência deixou o coeficiente de vazio positivo tão alto que ele passou a dominar qualquer outro mecanismo de controle.

Esse tipo de vulnerabilidade, associado a outras características exclusivas do projeto, foi uma consequência direta do isolamento tecnológico do bloco soviético e da ausência de uma cultura de segurança robusta, típica de um sistema que operava sob sigilo e pressão política.

Erro humano ou design soviético? As causas reais do acidente de 1986

A explosão de Chernobyl resultou de uma combinação entre um design defeituoso e erros graves da equipe de operação. Durante a preparação para um teste de rotina, em 26 de abril, os operadores desativaram mecanismos automáticos de segurança e levaram o reator a uma condição de extrema instabilidade, com baixa potência e grande dependência do coeficiente de vazio positivo.

Por anos, a narrativa oficial atribuiu a responsabilidade quase exclusiva aos trabalhadores da usina. Investigações posteriores, porém, alteraram esse foco.

Ficou claro que, embora a equipe tenha tomado decisões equivocadas, o próprio reator era inerentemente instável quando operado em baixa potência, justamente por causa de suas características de reatividade e da forma como as barras de controle interagiam com o núcleo.

Esses levantamentos também apontaram que os operadores não violaram políticas vitais de operação porque tais políticas simplesmente não estavam definidas ou não tinham sido adequadamente comunicadas pelas autoridades técnicas.

Segundo investigações, a equipe desconhecia o quão perigosa era a operação em baixa potência nesse tipo de equipamento, já que as características de reatividade não haviam sido plenamente divulgadas.

Nesse contexto, as ações dos operadores aparecem menos como um ato isolado de imprudência e mais como sintoma de uma cultura de segurança precária. O ambiente soviético, marcado por segredo, hierarquia rígida e pouca transparência, contribuiu para que uma falha de projeto se transformasse em catástrofe.

Por que Chernobyl foi o "ponto de virada" para o fim da União Soviética

O impacto de Chernobyl ultrapassou em muito os limites da usina ou da região contaminada. O desastre tornou visíveis, para a população soviética e para o mundo, as fragilidades estruturais do regime.

Valery Legasov, líder da delegação soviética nos organismos internacionais após o acidente, descreveu a tragédia como a "apoteose inevitável" de um sistema econômico marcado pela negligência na gestão científica e pelo descaso constante com os equipamentos.

Segundo essa leitura, Chernobyl não foi um episódio isolado, mas o resultado lógico de décadas de prioridades distorcidas, em que metas produtivas e militares se sobrepunham à segurança.

A dimensão do acidente obrigou Moscou a rever práticas, admitir falhas e aceitar uma cooperação inédita entre a indústria nuclear do Leste e do Ocidente, ainda antes do fim formal da Guerra Fria.

Para o ex-presidente Mikhail Gorbachev, o peso político e simbólico de Chernobyl foi tão grande que o acidente se tornou um fator mais decisivo para a queda da União Soviética do que a própria Perestroika, seu programa de reformas para o país.

Ao expor, de forma incontornável, as falhas de gestão, de tecnologia e de comunicação do Estado soviético, a explosão do RBMK-1000 em 1986 ajudou a minar a confiança interna e externa no projeto soviético e se consolidou como um verdadeiro ponto de virada rumo ao fim da URSS.

Chernobyl foi desligada definitivamente após 14 anos, em 2000

O fim definitivo da usina de Chernobyl aconteceu 14 anos após o desastre. Suas operações foram encerradas de forma permanente em 15 de dezembro de 2000, com o desligamento de seu último reator operacional, a Unidade Número 3.

O complexo nuclear era composto por quatro reatores, mas apenas um foi destruído em 1986. Os reatores restantes continuaram em operação por anos, sob forte pressão da comunidade global para o encerramento total da usina.

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