Você gosta de tapa na cara? Eu não gosto, mas em apenas dois dias a gente levou dois tapas na cara do Congresso Nacional. Na terça foi a Câmara, aprovou uma bandalha que os deputados chamam de mini reforma eleitoral, um nomezinho bonitinho, aí quem ouve pensa que é coisa boa, que vai melhorar a vida da gente, vai reduzir o número de partidos, vai, sei lá, eu criar o voto distrital, qualquer coisa assim, mas nada disso é bandalha mesmo.
A Câmara aprovou que a multa máxima para desvio de verba dos partidos agora é 30 mil. Então desviou 50 mil, 500 mil, 5 milhões, multa de 30 mil. Então olha a beleza, você dá 5 bilhões de reais para os partidos fazerem campanha e se pegar um desvio ali, 30 mil de multa. E como é que paga essa multa? Com o dinheiro do próprio fundo. Ou seja, dinheiro público pagando a punição pelo mau uso do dinheiro público. É genial, é de uma cara de pau-que-beira psicopatia. Aí dois dias depois, ontem, segundo tapa na cara, o Congresso derrubou o veto do governo para uma lei e toma outra generosidade deles pra eles mesmos, porque com o fim do veto ficou liberado o repasse de dinheiro público pra prefeitos nos meses que antecedem a eleição.
Proibição que existia há décadas. Três meses antes, nada de verba pra estado e município, a regra foi pro lixo. O Tribunal de Contas da União já disse que o tema pode parar no Supremo. Mas tem mais, os prefeitos que são inadimplentes com a União, aqueles que devem, agora podem voltar a receber repasse federal bem na hora da eleição. E o mais bacana dos tapas é que PT e IPL votaram juntos, defensores de Lula, defensores de Flávio Bolsonaro de mãos dadas, uma unidade que não acontece quando o tema é educação, é saúde, é segurança.
O Congresso é um poder fundamental, a democracia depende dele, não fosse o Congresso, quantas e quantas barbaridades teriam sido aprovadas, quantas decisões absurdas do governo teriam virado lei. Congresso é essencial pra conter impulsos autoritários, só que se a gente bobear, se a sociedade bobear, se a gente der as costas, a mesma casa que toma decisões nobres apronta como nesses dois presentões, um para os partidos, outro para as bases eleitorais.
E na mesma semana em que o Congresso apostou no ‘liberou geral’, o ministro da Fazenda anunciava bloqueio orçamentário na carne porque o cobertor é curto. Então, corta investimento, corta serviço público, corta o que interessa para a sociedade, de um lado, dinheiro de menos para atendimento ao cidadão, de outro, o Congresso abrindo mão para o controle sobre o fundo eleitoral de quase 5 bilhões e para a verba de prefeito amigo às vésperas da eleição. Dois tapas em dois dias, eles é que deveriam ficar vermelhos de vergonha, mas com os tapas, é a sua cara e a minha que ficam vermelhas.
Fique bem informado!
Receba gratuitamente as notícias mais importantes do dia direto no seu e-mail
Escolha quais newsletters quer receber


