
Oinegue
Reprodução/Band
Brasil, ano eleitoral de 1986. Para conter a inflação e evitar prejuízos eleitorais, o governo José Sarney congelou os preços da economia. Como sempre acontece quando o Estado agride regras de mercado, vem um revés. Uma crise de abastecimento começou a faltar tudo: arroz, feijão, leite, açúcar, carne.
Aí o governo, perdido, acusou os pecuaristas de serem pessoas malvadas que seguravam o boi gordo no pasto para forçar a liberação de preços. E saiu pelo campo confiscando gado. Foi inútil, não deu certo.
Brasil, ano eleitoral de 2026. Para conter a inflação e evitar prejuízos eleitorais, o governo segura os reajustes da Petrobras. Vem o conflito do Oriente Médio, o barril dispara, mas a Petrobras não mexe na tabela. Os preços sobem nos postos, em alguns lugares começa a faltar combustível.
Aí o governo, perdido, diz que isso está acontecendo porque tem gente que gosta de tirar proveito da desgraça alheia. As palavras são do presidente Lula. Você percebe a semelhança? Sarney e Lula atribuindo a pessoas malvadas o que não passa de um movimento normal numa crise de oferta. Faltava carne, o preço subiu. Falta combustível, o preço sobe, em alguns casos, some.
Pode ter malandragem? Até pode. Mas o que está acontecendo é mercado. Seria injusto dizer que Lula está copiando Sarney. Ele na verdade repete um comportamento histórico dos nossos governantes.
A gente volta para 1973, o preço do barril quadruplicando, o Brasil, que importava 80% do petróleo que consumia, viu a economia implodir. Aí o governo controlou o preço interno e se endividou para cobrir a diferença.
1979, novo choque, o barril triplica, o Brasil volta a segurar, volta a se endividar e a solução, as duas, né? 73 e 79, ajudam a explicar a inflação de 1.500% ao ano que a gente atingiu no final dos anos 80.
Na gestão Fernando Henrique Cardoso, o governo cria um imposto sobre combustível que funcionaria como um colchão. Quando o preço internacional estivesse baixo, o imposto seria alto, o dinheiro seria guardado. Quando o preço subisse, o governo usaria a reserva para amortecer o choque. Era a ideia certa, mas durou pouco.
Vem Lula 1, incorpora o imposto ao orçamento geral, o colchão some. E agora Lula 3 repete o que Dilma fez, só que ela fez de um jeito radical, arrebentou a Petrobras. Dilma segurou o preço abaixo do mercado por anos. A Petrobras comprava caro lá fora, vendia barato aqui dentro. Quando o ajuste veio no governo Temer, veio de uma vez, o diesel subiu 50% e aí o Brasil acabou parando numa greve de caminhoneiros.
John Rockefeller, o homem que construiu a maior fortuna mundial com petróleo, ele dizia que o petróleo é uma commodity muito versátil, a mais versátil que ele conhece e a mais volátil também. Depende do Estreito de Ormuz, do míssil iraniano, da reunião da OPEP, e ignora decretos de governo, broncas de presidente.
Então a solução não é procurar quem quer ganhar com a desgraça alheia, mas aceitar que o mercado existe, que a volatilidade é permanente e que o Estado que briga com a realidade sempre perde. Sempre.
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