Você acha que o governo tem moral pra te ensinar a gastar? O maior gastador da face da terra pode ajudar você a controlar as despesas se ele não controla as dele?
O presidente Lula acha que sim. Ele falou essa semana que pediu ao ministro da Fazenda para estudar uma forma de facilitar o pagamento de dívidas da sociedade e que encomendou uma campanha pedagógica de educação financeira. Seria bom matricular os políticos nesse curso. Os ministros, o próprio presidente.
Na mesma semana que Lula fala de ensinar as pessoas a gastar, o governo discute a criação de mais uma estatal. Mais despesa. Uma empresa para explorar terras raras sem ter resolvido os Correios que estão quebrados. Dá pra estender também o curso pro judiciário que oficializou os penduricalhos agora com ajuda do STF. Judiciário mais caro do mundo, legislativo dos mais caros, sessenta bilhões de reais por ano em emendas.
Governo torrando dinheiro sem pensar no amanhã, querendo dar aula pra sociedade. Lula sugeriu que as pessoas se perdem com compras miúdas. O brasileiro está endividado. Oitenta por cento das famílias devendo, comprometendo trinta por cento da renda mensal com pagamento de dívidas. Os americanos comprometem onze por cento. Só que não é por causa de compra miúda não. Não sobra dinheiro.
Tem uma classificação internacional, Banco Mundial usa, OCDE, IBGE diz lá. União Europeia as pessoas gastam sessenta e um por cento do que elas ganham com moradia, alimentação e transporte. No Brasil, os mesmos itens consomem setenta e dois por cento da renda. A gente tá falando do básico do básico e esse básico do básico já leva quase três quartos do salário. De 2020 pra cá a renda subiu trinta e três por cento. Legal né? Mas os preços subiram trinta e nove por cento. O brasileiro está mais pobre hoje do que há cinco anos.
Você não vai achar um hábito de consumo tipicamente brasileiro. O brasileiro não é exótico, ele não tem que ser reeducado. O que é tipicamente brasileiro e deveria mudar é a taxa de juros criminosa. Pode procurar em outros países, não tem, só na Rússia. E as pessoas não podem fazer como o governo que quando falta dinheiro aumenta impostos. Elas se endividam. Não é pra comprar blusinha, panela, binóculo, não. É pra cobrir despesas do mês.
Se financiam onde? No rotativo do cartão, que é um assalto. Nenhum país usa o rotativo como fonte de financiamento primário. O brasileiro usa porque não tem acesso a crédito. Os juros altos são o maior programa de transferência de renda dos pobres pros ricos. E nesse programa o governo tem se empenhado. Para conter os juros teria que conter a dívida pública. Para isso precisaria fazer um ajuste de quatro por cento do PIB. Se ouve quatro por cento, acha que é pouco, mas para economizar quatro por cento do PIB tem que cortar o equivalente a metade dos benefícios previdenciários ou acabar com o Bolsa Família, o seguro-desemprego, abono salarial, tudo junto e ainda sim ia faltar um por cento.
Essa conclusão vem de um estudo assinado por 56 economistas. Os gastos públicos cresceram em média seis por cento ao ano em termos reais desde o plano real. O governo não tem nada pra ensinar. Poderia ajudar se fizesse a lição de casa em vez de fazer discurso.
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