Um dia, Lula sobe nas pesquisas, aí todo mundo começa a dizer que a eleição tá decidida, que a gente vai ter mais quatro anos de PT. Aí sai outra pesquisa mostrando o Lula em queda e a turma passa a dizer que Flávio Bolsonaro pode ganhar uma eleição que uma semana antes parecia perdida.
Como sai pesquisa toda semana – às vezes saem duas, três, numa semana só – fica todo mundo nessa análise enlouquecida. Fico imaginando um comentarista contratado pra trabalhar num parque de diversões mas encarregada de explicar a montanha-russa.
"Agora está subindo, agora está descendo. Ó, a subida foi forte, hein? A descida, mais forte ainda."
Gente do céu, montanha-russa é assim. Pesquisa também é assim. Hoje saiu mais uma, BTG Nexus. Lula aparece com 42% no primeiro turno, Flávio Bolsonaro com 34%. Na simulação de segundo turno, 47% para Lula, 44% para Flávio, empate técnico.
Como sempre acontece, começou a caça aos sinais. Lula caiu no Nordeste, tinha 61% na rodada anterior, tem 56%. Flávio subiu de 22% para 25%. Entre os evangélicos, também Flávio ganhou espaço. Aí a reação vem previsível: "xiii, apertou de novo", “olha, ficou mais difícil para Lula", “Flávio está avançando".
A pesquisa foi feita depois de dois escândalos – isso é importante: o de Jaques Wagner, metido até o pescoço com a turma do Banco Master, admitindo ter pedido quase R$ 2,5 milhões de reais para comprar um apartamento e o vídeo de Michele Bolsonaro detonando o enteado Flávio.
Dá até para dizer que hoje um caso parece mais pesado do que o outro, evidente, basta ver os números, mas hoje é hoje. A eleição é lá no longínquo outubro. Até lá, ninguém sabe o que o eleitor vai guardar na memória quando ele for entrar na cabine e apertar os botões na maquininha.
Pega 2005: estourou o mensalão. Lula perdeu popularidade, 2006 foi reeleito. O eleitor fez uma conta, valorizou mais os programas sociais do que o escândalo. Você vai para 2013, o Brasil inteiro nas ruas, muita gente disse, "olha, a Dilma vai ser liquidada na eleição do ano seguinte", aí o ano seguinte chegou, 2014, ela se reelegeu.
Até as eleições faltam meses. E meses em eleição são anos. Vai ter campanha, vai ter propaganda, vai ter debate, vai ter notícia boa, vai ter notícia ruim para os dois lados. O governo vai tentar convencer o eleitor que entregou muito e que eleger alguém da oposição é colocar tudo a perder.
Flávio e os outros candidatos de oposição vão disparar o que der para detonar o governo e mostrar que com eles o Brasil vai ser outro.
O eleitor vai colocar na balança, vai decidir o que vai escutar daqui, o que vai escutar dali, vai decidir o que sentiu nos últimos anos e vai tomar a decisão entre o que o governo entregou e o que deixou de entregar, entre os defeitos que todo mundo enxerga e as promessas da oposição.
A montanha-russa vai continuar nessa, sobe e desce até outubro. A eleição para presidente não é decidida como resultado de uma leitura no meio do passeio da montanha-russa. O eleitor decide quando ele entende que a viagem terminou. E ela vai terminar, mas na última hora.
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