O Brasil pode pagar a partir desta sexta-feira uma conta alta por aquele que talvez seja um dos maiores erros da nossa política externa recente, associado a um problema que nasceu aqui, cresceu aqui e que a gente não conseguiu conter. Aí atravessou fronteiras, chegou a 28 países, incluindo os Estados Unidos. A partir de sexta, PCC e Comando Vermelho passam a fazer parte da lista americana de organizações terroristas. Tá lá Hamas, Al Qaeda, Estado Islâmico e outras tantas. E isso muda tudo.
Muda para empresas, muda para bancos que operam mesmo sem saber, mesmo sem conhecimento onde essas facções atuam, abrindo contas sem saber e passam a ter exposição regulatória americana, sujeitas a penas de até 20 anos de prisão. O governo americano não criou o PCC, não inventou o Comando Vermelho, isso é resultado de uma inação do estado brasileiro que tem três décadas. Três décadas perdendo território para o crime organizado.
É um erro nacional e que agora recebe um enquadramento internacional. Dado este histórico, seria injusto dizer que isso é erro deste governo. Mas vamos lá, este governo não soube ler os sinais. Em janeiro do ano passado, Donald Trump anunciou: 'olha, organizações criminosas internacionais podem ser enquadradas como organizações terroristas'. Ninguém viu? No mês seguinte, seis cartéis mexicanos foram enquadrados. Ninguém viu? Ao longo de 2025, ainda enquadraram cartéis do Equador, Haiti, Venezuela, Colômbia. Também ninguém viu isso no governo brasileiro?
Em maio de 2025, funcionários do Departamento de Estado foram a Brasília, pediram diretamente para o Brasil enquadrar o PCC e o Comando Vermelho como terroristas, aqui, pela legislação brasileira. Que não enquadra as facções como terroristas porque exige motivação ideológica ou religiosa para isso. E as facções querem dinheiro, lucro. Tem um argumento... esse aliás, esse argumento tem lógica? Tem lógica porque os americanos faziam isso até 2025. Aí ninguém percebeu que Washington acabou com a distinção, oficialmente.
Aí agora os bolsonaristas querem fazer crer que Donald Trump fez isso para agradar Flávio Bolsonaro porque ele foi lá visitar na semana passada. Bobagem, não tem nada a ver com isso, não é esse o grau de improviso da política externa americana. Agora o governo brasileiro sabia. Teve tempo, teve oportunidade de agir. Escolheu não fazer nada. A conta, como eu falei, não vai atingir as organizações criminosas. Essas vão continuar operando. Pode atingir as empresas formais. No México, tá cheio de estudo mostrando que o enquadramento que aconteceu há mais de um ano não mudou nada de relevante no mundo do crime.
Mas três bancos já foram cortados do sistema financeiro internacional. Ato administrativo de Washington sem processo judicial. 48 horas, acabou. Esse é o padrão. E o Brasil entra nesse risco agora. O presidente Lula disse que o país não aceita ser tratado como segunda classe. É compreensível como reação. Como política, é insuficiente.
A soberania que importa é a soberania que o estado brasileiro perdeu para o crime organizado. Décadas de complacência, como eu falei. Soberania perdida não se mantém, não se recupera com discurso. E o enquadramento americano, lamentavelmente, não vai embora só com retórica.
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