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Oinegue: Sociedade e instituições precisam acompanhar o ritmo da IA

Por Redação
REDAÇÃO

30/07/2026 • 23:29 • Atualizado em 30/07/2026 • 23:29

Eduardo Oinegue

"Essa tecnologia vai destruir profissões". “Os especialistas vão perder autoridade". “As pessoas vão parar de pensar”. “Vai ficar difícil separar o que presta do que não presta".

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Parece que a gente está falando da inteligência artificial, só que essas acusações foram feitas textualmente há quase seis séculos, quando Gutenberg aperfeiçoou a impressão de livros e os copistas, que passavam meses copiando os livros à mão, perceberam que o trabalho deles estava ameaçado. Um dos intelectuais mais respeitados da época chegou a escrever um tratado defendendo a cópia manual dos livros.

Os críticos tinham uma certa razão, porque muitos livros que foram impressos espalharam erros e textos de baixa qualidade, mas o saldo foi extraordinário porque o custo do conhecimento despencou.

É sempre assim com as tecnologias. Olha a linha de montagem criada por Henry Ford. O tempo de fabricação de um Modelo T caiu de mais de 12 horas para coisa de uma hora e meia. Derrubou o preço do carro, que deixou de ser um artigo de luxo.

A agricultura passou por uma transformação semelhante. Tem estudo da Embrapa mostrando que, em 50 anos, o tempo necessário para gerar R$ 1 de produção, para tirar da terra, caiu de cerca de 90 minutos para menos de 3 minutos.

Toda grande tecnologia aumenta a produtividade, reduz custo, democratiza algum tipo de acesso. A IA, por exemplo, democratiza a primeira explicação. Dá para compreender melhor um contrato, um exame, um artigo antes de a gente procurar um especialista. Ela traz ganhos de produtividade evidentes, mas, claro, cria novos e grandes desafios.

As revoluções anteriores, essas a que me referi e outras, reduziram principalmente o custo do trabalho físico. A inteligência artificial atua sobre parte do trabalho intelectual. Isso gera polêmica, mas a lista dos desafios não para por aí, porque ela amplia o debate sobre o futuro dos empregos – agora envolvendo médicos, advogados, engenheiros.

Olha o caso da concentração. Se a imprensa de Gutenberg descentralizou a reprodução dos livros e do conhecimento, os modelos mais avançados de IA caminham na direção oposta, porque desenvolver esses modelos exige investimentos bilionários, concentrando um poder enorme na mão de poucas empresas.

E a qualidade? A IA já produziu respostas absurdas, petições na Justiça citando precedentes inexistentes, mostrando que a supervisão humana é indispensável.

A história mostra que toda tecnologia que reduz o custo de produzir ou reproduzir informação acaba gerando disputas jurídicas, especialmente, nesse caso da IA, sobre a propriedade intelectual.

Primeiro a tecnologia muda a economia, depois obriga escolas, empresas, governos e tribunais a correr atrás. Foi assim com Gutenberg, com a máquina a vapor, com a internet — e a inteligência artificial repete o padrão, só que numa velocidade que impressiona e assusta.

O desafio não pode ser conter o avanço da tecnologia, porque isso é impossível. O desafio é fazer a sociedade e as instituições acompanharem o ritmo da tecnologia.

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