"Essa tecnologia vai destruir profissões". “Os especialistas vão perder autoridade". “As pessoas vão parar de pensar”. “Vai ficar difícil separar o que presta do que não presta".
Parece que a gente está falando da inteligência artificial, só que essas acusações foram feitas textualmente há quase seis séculos, quando Gutenberg aperfeiçoou a impressão de livros e os copistas, que passavam meses copiando os livros à mão, perceberam que o trabalho deles estava ameaçado. Um dos intelectuais mais respeitados da época chegou a escrever um tratado defendendo a cópia manual dos livros.
Os críticos tinham uma certa razão, porque muitos livros que foram impressos espalharam erros e textos de baixa qualidade, mas o saldo foi extraordinário porque o custo do conhecimento despencou.
É sempre assim com as tecnologias. Olha a linha de montagem criada por Henry Ford. O tempo de fabricação de um Modelo T caiu de mais de 12 horas para coisa de uma hora e meia. Derrubou o preço do carro, que deixou de ser um artigo de luxo.
A agricultura passou por uma transformação semelhante. Tem estudo da Embrapa mostrando que, em 50 anos, o tempo necessário para gerar R$ 1 de produção, para tirar da terra, caiu de cerca de 90 minutos para menos de 3 minutos.
Toda grande tecnologia aumenta a produtividade, reduz custo, democratiza algum tipo de acesso. A IA, por exemplo, democratiza a primeira explicação. Dá para compreender melhor um contrato, um exame, um artigo antes de a gente procurar um especialista. Ela traz ganhos de produtividade evidentes, mas, claro, cria novos e grandes desafios.
As revoluções anteriores, essas a que me referi e outras, reduziram principalmente o custo do trabalho físico. A inteligência artificial atua sobre parte do trabalho intelectual. Isso gera polêmica, mas a lista dos desafios não para por aí, porque ela amplia o debate sobre o futuro dos empregos – agora envolvendo médicos, advogados, engenheiros.
Olha o caso da concentração. Se a imprensa de Gutenberg descentralizou a reprodução dos livros e do conhecimento, os modelos mais avançados de IA caminham na direção oposta, porque desenvolver esses modelos exige investimentos bilionários, concentrando um poder enorme na mão de poucas empresas.
E a qualidade? A IA já produziu respostas absurdas, petições na Justiça citando precedentes inexistentes, mostrando que a supervisão humana é indispensável.
A história mostra que toda tecnologia que reduz o custo de produzir ou reproduzir informação acaba gerando disputas jurídicas, especialmente, nesse caso da IA, sobre a propriedade intelectual.
Primeiro a tecnologia muda a economia, depois obriga escolas, empresas, governos e tribunais a correr atrás. Foi assim com Gutenberg, com a máquina a vapor, com a internet — e a inteligência artificial repete o padrão, só que numa velocidade que impressiona e assusta.
O desafio não pode ser conter o avanço da tecnologia, porque isso é impossível. O desafio é fazer a sociedade e as instituições acompanharem o ritmo da tecnologia.
Fique bem informado!
Receba gratuitamente as notícias mais importantes do dia direto no seu e-mail
Escolha quais newsletters quer receber


